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sábado, 22 de outubro de 2016

Fissura

Ei menina frágil, tremeluz, brilho sorriso com dentes grandes e olhos pequenos
Voz rouca, durona, malandroqueira
Caiçara de braço forte agarrado no remo sonhando canoa
Quem podia esperar tanta força pujante nesse sorriso envergonhado de sorrir porque sorrir era longe
Guardado à entranha o fel do abandono
Não você não seria capaz de agredir assim
Não você não usaria palavras para ferir
Não você não me expulsaria da tua vida por medo de amar
Com a rudeza imprevista desconfiada ciumenta
Vez atrás de vez, gritando, transtornando os mundos
Não menina frágil você tão frágil abusivamente transtornando meu mundo
Abusabusivamente agredindo ferindo
Quando sofrer é essa fenda que te atravessa de lado a lado
Fissura que rasgou tua vida aos quinze, menina, quando de fato
frágil era

Carregas agora em ti um ser ainda mais frágil
E quer sozinha te agarrar a ele proteger
Ninguém mais, você diz com teus olhos espantados,
Ninguém mais vai protegê-lo senão eu
Ainda que me falte força
Ainda que me sobre angústia
Quem chegar perto eu cuspo com meu cuspe de fel
Quem chegar perto eu arregaço com meu remo
Eu corto com meus dentes
Eu grito abuso acuso perturbo firo expulso
E nem venha com amor afagar
Essa fenda que me atravessa de lado a lado
Fissura que rasgou minha vida quando de fato
frágil menina era

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Elza Soares e o acontecimento

Resultado de imagem para elza soares virada cultural 2016
"Cadê o barulho? Eu quero ouvir barulho? Vocês têm que gritar, vocês têm que gritar." Isso dizia Elza Soares, como uma Rainha africana em seu trono sobre o palco da Virada, já desde o início, mas sempre repetindo, quase a cada intervalo entre as músicas, nas pausas de sua voz cantando, como se o barulho mesmo fosse o alimento de sua infinita melodia ou o germe de onde brotava a artista a cada vez.

E não saíam de mim aquelas frases lidas muito recentemente em Lógica do sentido: "O que torna a linguagem possível é o acontecimento, enquanto não se confunde nem com a proposição que o exprime, nem com o estado daquele que a pronuncia, nem com o estado de coisas designado pela proposição. E, de fato, tudo isso seria apenas barulho sem o acontecimento, e barulho indistinto". 
Sem o acontecimento, somente ruídos indistintos, é ele que separa, distingue, torna a palavra possível. "Mais barulho, mais alto", dizia Elza e a cada novo sopro sua Voz imensa ressoava esse instante indistinto onde todos os sons eram Um, imenso marulho universal, que torna possível a palavra, a melodia, o sentido, a diferença.
Obrigado Elza por produzir tal acontecimento contra todas essas mentiras reiteradas, e de cantar a vida sobre toda essa tentativa malograda de nos assujeitar.