<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-7933450792545074082</id><updated>2012-01-31T18:03:06.133-02:00</updated><category term='Ficção'/><category term='Poema'/><category term='Vídeo'/><category term='Cinema'/><category term='Ficção; Nietzsche'/><title type='text'>VERTICAIS</title><subtitle type='html'>Um pouco de vida, em estado bruto</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://sandrokobol.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7933450792545074082/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sandrokobol.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Sandro Kobol Fornazari</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/-xTzN-4bkzAc/TdRJ1ORxxmI/AAAAAAAAALo/4H4de0TD-Pc/s220/S6300830.JPG'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>23</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7933450792545074082.post-1618048498324156445</id><published>2011-08-15T13:28:00.002-03:00</published><updated>2011-08-15T13:44:02.358-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Ficção; Nietzsche'/><title type='text'>O corpo-escritura de Nietzsche</title><content type='html'>&lt;br /&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 36.0pt;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; margin-left: 70.9pt; margin-right: 68.35pt; margin-top: 0cm; text-align: justify; text-indent: 14.15pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt;"&gt;“Ricardo Reis tem uma curiosidade para satisfazer, [e pergunta a Fernando Pessoa,] Quem estiver a olhar para nós, a quem é que vê, a si ou a mim, Vê-o a si, ou melhor, vê um vulto que não é você nem eu, Uma soma de nós ambos dividida por dois, Não, diria antes que o produto da multiplicação de um pelo outro, Existe essa aritmética, Dois, sejam eles quem forem, não se somam, multiplicam-se.”&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; margin-left: 129.85pt; margin-right: 68.35pt; margin-top: 0cm; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: 10pt;"&gt;&amp;nbsp;(O Ano da Morte de Ricardo Reis, José Saramago).&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 36.0pt;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 36.0pt;"&gt;Escrever, exprimir “estados internos” ou “estados de fato”, dar à expressão uma multiplicidade que atravessa o corpo, ou melhor, que é o corpo, fazer-se palavra. Processo involuntário de identificação entre mundo e linguagem, o que se faz palavra é o efetivar-se da existência, carne que se faz verbo, corrigindo a narrativa do evangelho de João (João 1, 14). O estilo de Nietzsche, mais propriamente, os estilos de Nietzsche são o resultado desses trasbordamentos de forças que buscam a cada vez estender sua potência. &lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 36.0pt;"&gt;Nietzsche escreve em &lt;i style="mso-bidi-font-style: normal;"&gt;Ecce Homo&lt;/i&gt;: “Ouve-se, não se procura; toma-se, não se pergunta quem dá; um pensamento reluz como relâmpago, com necessidade, sem hesitação na forma — nunca tive aqui uma escolha.” (&lt;i&gt;Ecce Homo&lt;/i&gt;, Assim Falava Zaratustra § 3). Não ter escolha é constatar a ilusão da subjetividade pura, do intelecto “alheio ao tempo e à dor” (&lt;i&gt;Genealogia da Moral&lt;/i&gt;, III §&lt;span style="font-family: &amp;quot;Old Style Bold Outline&amp;quot;;"&gt; &lt;/span&gt;12), na medida em que o pensamento é exatamente tempo e dor, “vivências” corporais como suas condições de possibilidade, “testemunho” da pluralidade de afetos, de olhares. Todo pensamento tem origem no corpo, no modo como este impõe exigências ao mundo ou, ao contrário, no modo como responde às ameaças com que se depara. O corpo, nunca é demais ressaltar, entendido como singular conformação de impulsos, organização provisória da multiplicidade sob uma determinada perspectiva. A palavra é expressão de uma vida ascendente ou de seu contrário, uma vida declinante, em fuga.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 36.0pt;"&gt;Mas o pensamento, que comumente identificamos ao conteúdo, é também forma, isto é, estilo. Poemas, aforismos, dissertações, autobiografia, cada estado de fato encontra sua adequada expressão estilística – também cada parágrafo, frase, palavra. Indissociáveis, portanto, pensamento (vida) e estilo (obra), um reenvia ao outro; antes de qualquer outra coisa, é pela forma que travamos contato com um conceito.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 36.0pt;"&gt;Nietzsche quer se fazer visível, quer mostrar quem são seus escritos: daí o esforço prematuro de escrever aos 44 anos uma autobiografia (obviamente não sabia que não teria outra chance) em que assume o dever de declarar “eu sou tal e tal” (&lt;i&gt;Ecce Homo&lt;/i&gt;, Prólogo § 1). Quando ali narra a história de &lt;i style="mso-bidi-font-style: normal;"&gt;Assim Falava Zaratustra&lt;/i&gt;, no capítulo ou subcapítulo dedicado a essa obra, Nietzsche não se refere a precursores, estudos, debates acadêmicos, refere-se sim a suas viagens e caminhadas em Surlei e pela Itália: Chiavari, Roma, Nice. Agilidade muscular e força criadora seriam indissociáveis para Nietzsche, só levava a sério pensamentos surgidos ao ar livre, nunca quando se estava sentado. Modos idiossincráticos de criação filosófica: assim se manifestava nele Nietzsche a possibilidade de uma vida afirmativa, o modo como seu corpo impunha suas exigências ao mundo, criando a si mesmo e à sua obra, ou sendo arrebatado por ela. &lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 36.0pt;"&gt;Nietzsche quer se fazer visível, mas sua luz mais própria, diria Germán Meléndez, mais que a história visceral do surgimento de seus escritos, é seu estilo, aquilo que o singulariza toda vez em que um pensamento se expressa, toma forma. Por isso, afirma, não se pode adequadamente compreender Nietzsche senão através de sua própria obra, de uma “leitura sem intermediários”, do contato com as múltiplas formas em que ela se apresenta. O estilo deixa claro qual é a perspectiva a partir de que se fala, por mais provisória que seja a unidade alcançada que originou tal perspectiva.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 36.0pt;"&gt;O próprio Nietzsche trabalha essa questão quando do anúncio do eterno retorno em &lt;i style="mso-bidi-font-style: normal;"&gt;Assim Falava Zaratustra&lt;/i&gt;. Em “O convalescente”, Zaratustra resolve finalmente desafiar seu pensamento do eterno retorno para que ele se pronuncie, depois de mais de uma vez haver recusado sua vinda. Antes que seja capaz de fazê-lo, contudo, vêm a ele o nojo e o desespero de saber que o homem não é passível de aperfeiçoamento, que é eterno também o retorno do pequeno homem (que nega e se ressente da vida), e diante disso ser incapaz de superar o niilismo, a proclamação de que a vida não vale a pena. Zaratustra cai enfermo e permanece um longo tempo em convalescença. Seus animais, a águia e a serpente, é que vão romper o silêncio incitando Zaratustra a cantar, a criar uma nova lira para novas canções. Cantar: tornar-se aquilo que ele é, ou seja, o mestre ensinador do eterno retorno. Criar uma nova lira: dar nova forma ao seu pensamento, criar para ele um estilo único. (Mas não é isso o que faz o próprio Nietzsche com seu &lt;i style="mso-bidi-font-style: normal;"&gt;Zaratustra&lt;/i&gt;, ou seja, criar uma forma nova de expressão filosófica que desse conta acima de tudo do pensamento do eterno retorno?) &lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 36.0pt;"&gt;Mas Zaratustra não está suficientemente são. Ele deve ainda atravessar seu “grande silêncio” como estratégia de cura e fortalecimento, mas principalmente como ensejo para a criação de uma nova lira que lhe permitisse cantar em exaltação à vida e à eternidade (cf. &lt;i&gt;Assim falava Zaratustra&lt;/i&gt;, O outro canto de dança e Os sete selos). Toda canção exige um instrumento adequado, mesmo Zaratustra tem de se tornar esse instrumento para ser capaz de abraçar seu pensamento do abismo. Do mesmo modo Nietzsche teve de se tornar &lt;i style="mso-bidi-font-style: normal;"&gt;Assim Falava Zaratustra&lt;/i&gt;, fazer-se palavra e estilo para expressar o eterno retorno de todas as coisas.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 36.0pt;"&gt;Se a obra de Nietzsche é expressão direta do “estado de fato” nietzschiano, corpo que se faz pensamentos, que dá a si mesmo novos contornos que extrapolam sua suposta organicidade, então ler Nietzsche não seria justamente ser atravessado pela mesma tensão que precipitou tais pensamentos? Se respondermos que sim, então ler Nietzsche ou escrever sobre ele não é apenas um “exercício de estilo”. Sua filosofia é o acontecimento Nietzsche, ou vários acontecimentos Nietzsche, oportunidades para que uma dada hierarquia pulsional expanda sua potência, torne-se &lt;i style="mso-bidi-font-style: normal;"&gt;visível &lt;/i&gt;e &lt;i style="mso-bidi-font-style: normal;"&gt;audível&lt;/i&gt;. Ler ou escrever sobre Nietzsche, nesse sentido, é certas vezes mais que o compreender, é permitir que com ele se componham formas novas, estilos, é ensejar que com ele novos mundos (hierarquias) se expressem. A leitura que a filosofia de Nietzsche convida a que se faça de si exige a interferência daquele que lê com aquilo que está escrito, tocar e deixar-se tocar pelo corpo-escritura que ali se fez expressão, compor com ele uma nova multiplicidade. &lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyTextIndent"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyTextIndent"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyTextIndent"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyTextIndent"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyTextIndent"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyTextIndent"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyTextIndent"&gt;Uma outra versão deste texto foi publicada nos &lt;i&gt;Cadernos Nietzsche&lt;/i&gt;, n.11, 2001. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7933450792545074082-1618048498324156445?l=sandrokobol.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sandrokobol.blogspot.com/feeds/1618048498324156445/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://sandrokobol.blogspot.com/2011/08/o-corpo-escritura-de-nietzsche.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7933450792545074082/posts/default/1618048498324156445'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7933450792545074082/posts/default/1618048498324156445'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sandrokobol.blogspot.com/2011/08/o-corpo-escritura-de-nietzsche.html' title='O corpo-escritura de Nietzsche'/><author><name>Sandro Kobol Fornazari</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/-xTzN-4bkzAc/TdRJ1ORxxmI/AAAAAAAAALo/4H4de0TD-Pc/s220/S6300830.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7933450792545074082.post-2237682398684038937</id><published>2011-07-28T17:35:00.002-03:00</published><updated>2011-07-28T17:41:33.034-03:00</updated><title type='text'>A crítica genealógica no limiar da filosofia da diferença de Gilles Deleuze</title><content type='html'>&lt;h1 align="center" style="line-height: 150%; text-align: center;"&gt;&lt;/h1&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Artigo publicado na Revista Trágica: Estudos sobre Nietzsche&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Para ter acesso, clique no link abaixo. &lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;a href="http://tragica.org/artigos/v3n2/sandro.pdf"&gt;A crítica genealógica no limiar da filosofia da diferença de Gilles Deleuze&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Resumo: O artigo acompanha a contraposição, realizada por Deleuze, entre a crítica genealógica de Nietzsche e a crítica kantiana da razão pela própria razão. São privilegiados os argumentos de Nietzsche contra o imperativo categórico e sua análise da vontade de verdade, tomando como fio condutor a tipologia moral tal como é dissecada por Deleuze, ressaltando que, para Nietzsche, é necessário determinar que relação de forças se exprime na vontade que almeja o verdadeiro ou o Bem universal. A crítica kantiana teria sido incapaz de ultrapassar as forças reativas que se exprimem na razão, na moral e na religião. Trata-se, assim, de perguntar o que seria um pensamento não submetido às forças reativas e que pudesse afirmar a vida, estar a serviço da vida afirmativa, na medida em que o pensamento está sempre implicado nas relações de força que lhe dão origem.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Palavras-chave: crítica genealógica, vontade de potência, tipologia, imagem do pensamento.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Genealogical critique in the verge of the philosophy of difference &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abstract: The article traces the contraposition held by Deleuze, from the genealogical critique of Nietzsche and the Kantian critique of reason by reason itself. They are privileged Nietzsche’s arguments against the categorical imperative and his analysis of will to truth, having as a guiding moral typology as it is dissected by Deleuze, noting that, for Nietzsche, it is necessary to determine wich relationship of forces is expressed in the will that seeks the true or universal good. Kant's critique would have been unable to overcome the reactive forces which are expressed on reason, morality, and religion. It is, therefore, to ask what would be a thought that is not subject to reactive forces and could affirm life, being at service of affirmative life, to the extent that thought is always implicated in power relations that give rise to it.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; font-size: 10pt;"&gt;Key-words: genealogical critique, will to power, typology, thought image&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7933450792545074082-2237682398684038937?l=sandrokobol.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='related' href='http://tragica.org/artigos/v3n2/sandro.pdf' title='A crítica genealógica no limiar da filosofia da diferença de Gilles Deleuze'/><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sandrokobol.blogspot.com/feeds/2237682398684038937/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://sandrokobol.blogspot.com/2011/07/critica-genealogica-no-limiar-da.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7933450792545074082/posts/default/2237682398684038937'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7933450792545074082/posts/default/2237682398684038937'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sandrokobol.blogspot.com/2011/07/critica-genealogica-no-limiar-da.html' title='A crítica genealógica no limiar da filosofia da diferença de Gilles Deleuze'/><author><name>Sandro Kobol Fornazari</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/-xTzN-4bkzAc/TdRJ1ORxxmI/AAAAAAAAALo/4H4de0TD-Pc/s220/S6300830.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7933450792545074082.post-4004722235305616249</id><published>2011-05-20T14:55:00.000-03:00</published><updated>2011-05-20T14:55:25.207-03:00</updated><title type='text'>Aos leitores</title><content type='html'>Este blog acaba de passar por uma reformulação abrupta. De uma hora pra outra, resolvi que ele publicaria apenas minha produção, digamos, artística, que é sobretudo literária, que é sobretudo um amontoado de contos, cortes em minha vida, encontros duros com o fora, que se atenuam ao escritificarem.&lt;br /&gt;Deixei alguns textos sobre filmes, deixei também dois vídeos que elaborei.&lt;br /&gt;Minha produção em filosofia tem encontrado outros rumos, que não me parecem caber nesse formato, mas mantive os links ao lado, para o que está publicado na internet. Minha militância política passa também por outros cantos.&lt;br /&gt;Quanto aos textos que eram usados como pesquisa escolar, principalmente aquele sobre Kant e os imperativos, que davam ao blog um número expressivo de acessos diários, retirei: não sei como as escolas sobreviverão daqui pra frente...&lt;br /&gt;É isso, sejam bem-vindos a essa nova fase de Verticais, mais propensa à invisibilidade.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7933450792545074082-4004722235305616249?l=sandrokobol.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sandrokobol.blogspot.com/feeds/4004722235305616249/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://sandrokobol.blogspot.com/2011/05/aos-leitores.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7933450792545074082/posts/default/4004722235305616249'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7933450792545074082/posts/default/4004722235305616249'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sandrokobol.blogspot.com/2011/05/aos-leitores.html' title='Aos leitores'/><author><name>Sandro Kobol Fornazari</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/-xTzN-4bkzAc/TdRJ1ORxxmI/AAAAAAAAALo/4H4de0TD-Pc/s220/S6300830.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7933450792545074082.post-6698428144890319013</id><published>2010-04-25T12:55:00.004-03:00</published><updated>2011-05-23T11:23:05.838-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Ficção; Nietzsche'/><title type='text'>Un matin de dimanche de M. Nietzsche</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;Tradução do texto que vem a seguir, abaixo. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&amp;nbsp;Merci à Annick&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;M. Nietzsche, comme d’habitude, s’est éveillé tôt ce dimanche. Il était logé dans une petite auberge, prés de la mer de la baie de Rapallo, près de Genova. La pluie et le froid avaient cessé, le soleil s’aventurait dans un ciel où les nuages se dispersaient. Il a pris une tasse de thé très fort, en se préparant pour sa promenade sur le chemin allant vers le sud, qui passait à travers les pins et d’où on voyait la mer. En se promenant dans les rues de la petite ville, il a vu des gens se dirigeant, pressés, vers la messe, pendant que les cloches de l’église annonçaient huit heures. Il a observé attentivement les parents qui tiraient leurs enfants par la main, les belles jeunes filles dans leurs habits du dimanche, avec de beaux chapeaux qui les protegeaient du soleil et du regard des garçons. Il a pu observer aussi les vieilles dames qui scrutaient le monde d’un œil méfiant et accusateur. Il s’est souvenu combien, dans son enfance, il avait été obligé à fréquenter l’église, et plus encore après la mort de son père, ceci toujours accompagné de sa mère, sa sœur, et sa tante.&lt;br /&gt;&lt;i&gt;Combien de mépris y a-t-il chez ces vieilles femmes, tant chez les jeunes que chez les autres, combien de mépris pour les instincts vitaux, elles dont le ressentiment abîme leur corps, et qui se mortifient dans l’illusion d’atteindre l’au-delà, pauvres diablessses, elles voient ce pressuposé même de la vie, la sexualité, comme quelque chose d’impur.&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;Il s’est dirigé vers une rue secondaire, très étroite, qui montait vers le début du chemin qu’il était en train de prendre. Il y avait, dans cette rue, une librairie où un vieux monsieur sourd maintenait de poussiéreux livres en attendant les acheteurs qui n’apparaissaient que rarement. M. Nietzsche a cette fois decidé d’y entrer, plus par curiosité quant au libraire qu’en virtu des livres, puisqu’il lisait très peu ces dernièrs mois. Lentement, il a circulé parmi les étagères, cherchant juste des livres où il flairerait un jour de soleil, une brise tiède venue du sud, et peut-être qui sait la saveur des raisins frais, ou d’une tasse de chocolat épais et non gras. Il s’écartait de livres dont l’odeur renverrait à des cabinets d’étude, des bibliothèques, et des salles de conferénce. Il a remarqué une étagère, contenant divers livres de Kant et, juste au-dessous, La phénoménologie d’Esprit. Un vent glacial a pénétré dans ses narines. Il s’est écarté. Il a avancé rapidement en direction d’une belle édition de Le rouge et le noir, qui exhalait un parfum de fleurs du champs. Il a voulu l’acheter, mais il s’est apperçu qu’il n’avait pas d’argent. Peut-être reviendrait-il plus tard. Le libraire a regardé attentivement ce monsieur altier, avec une grossse moustache qui lui couvrait la bouche. Il a pris une petite tablette et il lui a écrit en lui demandant s’il était allemand. M. Nietzsche a fait signe que non de la tête, et il lui a montré du doigt un “Stendhal” écrit dans le livre. Le libraire a tout de suite compris qu’il était français. Il a souri. Et il reçut le même sourire en retour.&lt;br /&gt;M. Nietzsche est sorti de la librairie décidé à revenir une autre fois. Cette journée-lá, il ne pouvait pas gaspiller le soleil qui se fixait, plonger dans ce paysage magnifique. Le chemin était en déclivité, et on pouvait arriver au sommet de la butte, d’oú on voyait tout le promontoire de Portofino. C’est ce qu’il a fait, en s’arrêtant de temps en temps pour prendre des notes. Il portait toujours un petit cahier, et ne s’arrêtait même pas pour écrire les pensées qui lui apparaissaient ainsi, en plein air, pendant que ses muscles fêtaient les joies de la promenade. Il se sentait très bien disposé, après avoir souffert pendant des années de migraines terribles, de difficultés de vision, et de douleurs aiguës dans l’estomac. Il avait dû abandonner sa chaire de Philologie Classique à l’Université de Bâle, mais maintenant il se sentait comme si cela lui avait sauvé la vie, et rendu la liberté de penser par lui-même et à ses risques et périls.&lt;br /&gt;&lt;i&gt;L’erudit ne fait que remuer des livres. Le philologue doit bien en arriver à deux cents sur une journée! Il finit par perdre la capacité de penser par lui-même. Il ne fait que répondre à des stimulus – une pensée lue – et il se contente d’approuver ou de disapprouver, et de faire la critique de ce qui a été pensé par un autre. Si il ne remue pas, ne pense pas. C’est la meilleure formule pour la stupidité. &lt;/i&gt;&lt;br /&gt;Quand il est revenu à la ville, il s’est apperçu qu’il avait écrit une dizaine de pages. Satisfait des pulsations de son corps, il s’est acheminé vers le petit restaurant où, à Rapallo, il prenait habituellement un frugal repas. À l’une des tables, il y avait quelques dames qui bavardaient pendant qu’elles mangeaient des pâtes accompagnées d’un rôti de bœuf. Le propriétaire du restaurant était un napolitain très sympa avec lequel il échangeait toujours quelques mots.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;– Ah, M. Nietzsche, il fait beau aujourd’hui, n’est-ce pas, le froid a fait la trêve!&lt;br /&gt;– Une matinée excellente, sans aucun doute.&lt;br /&gt;– M. Nietzsche, laissez-moi vous présenter ma cousine Anita et sa belle-sœur, Mme. Bergamasco, elles sont arrivées en ville hier. Mesdames, je vous présente M. Nietzsche, il est professeur en Suisse.&lt;br /&gt;– Ex-professeur, M. Pecolatto.&lt;br /&gt;– Bonjour, M. Nietzsche.&lt;br /&gt;– Bonjour, mesdames, soyez les bienvenues.&lt;br /&gt;– Voulez-vous vous asseoir avec nous, M. Nietzsche, nous étions en train de commenter combien la messe a été touchante aujourd’hui, et quel beau choeur.&lt;br /&gt;– Je vous en remercie, toutefois j’ai maintenant quelques notes à relire.&lt;br /&gt;&lt;i&gt;L’aveuglement face au christianisme mène l’humanité à la décadence. La moralité chrétienne est une anti-nature qui reçoit les plus grands honneurs, néanmoins, elle ne fait que sauver les faibles et les impuissants du suicide et de la honte d’eux-mêmes. Ils ne se sont donc pas encore aperçus que les églises ne sont que les tombes d’un dieu mort? Que ces messes ne sont que les litanies d’un funérarium horripilant?&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;M. Nietzsche s’est assis à sa table habituelle, pendant qu’il attendait son repas. Mais, les parentes de M. Pecolatto se sont risquées à une tentative de plus pour attirer l’attention de ce distinct monsieur. Une question de Mme. Bergamasco a traversé l’espace du restaurant, éveillant les regards et les oreilles de plusieurs autres clients: &lt;br /&gt;– Mais enfin, M. Nietzsche, dites-nous, vous êtes allé à la messe aujourd’hui?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Il a regardé attentivement la vieille dame qui avait un sourire en même temps aimable et défiant. Il a appuyé la main gauche sur le cahier ouvert au-dessus de la table et a retenu un verre d’eau avec la droite. Les cloches de l’église sonnaient, exactement à ce moment-là, douze heures. &lt;i&gt;Midi est l’heure sacrée pour ceux qui ne croient pas aux ombres.&lt;/i&gt; M. Nietzsche a élevé son verre vers Mme. Bergamasco, comme s’il lui offrirait un toast:&lt;br /&gt;– Pas aujourd’hui, madame, pas aujourd’hui.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7933450792545074082-6698428144890319013?l=sandrokobol.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sandrokobol.blogspot.com/feeds/6698428144890319013/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://sandrokobol.blogspot.com/2010/04/un-matin-de-dimanche-de-m-nietzsche.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7933450792545074082/posts/default/6698428144890319013'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7933450792545074082/posts/default/6698428144890319013'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sandrokobol.blogspot.com/2010/04/un-matin-de-dimanche-de-m-nietzsche.html' title='Un matin de dimanche de M. Nietzsche'/><author><name>Sandro Kobol Fornazari</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/-xTzN-4bkzAc/TdRJ1ORxxmI/AAAAAAAAALo/4H4de0TD-Pc/s220/S6300830.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7933450792545074082.post-1756878831148544271</id><published>2010-03-31T11:33:00.006-03:00</published><updated>2011-05-22T18:32:09.404-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Ficção; Nietzsche'/><title type='text'>Uma manhã de domingo do Sr. Nietzsche</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_lWBRbhU-zjo/S7NdDflgfAI/AAAAAAAAAJQ/SMbwchgURxY/s1600/rapallo+2.jpg" imageanchor="1" style="clear: right; float: right; margin-bottom: 1em; margin-left: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://3.bp.blogspot.com/_lWBRbhU-zjo/S7NdDflgfAI/AAAAAAAAAJQ/SMbwchgURxY/s320/rapallo+2.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O Sr. Nietzsche, como de costume, acordou cedo nesse domingo. Estava hospedado num pequeno albergue próximo ao mar da baía de Rapallo, perto de Gênova. A chuva e o frio haviam dado uma trégua, o sol se arriscava num céu onde nuvens se dispersavam. Tomou uma xícara de chá bem forte preparando-se para sua caminhada na trilha rumo ao sul, que passava pelos pinheiros e de onde se avistava o mar. Caminhando pelas ruas da pequena cidade, viu as pessoas se dirigindo apressadas para a missa enquanto os sinos da igreja anunciam as oito horas. Observou atentamente os pais que arrastavam seus filhos pelas mãos, moças lindas que se vestiam de recato e de belos chapéus que lhes protegiam do sol e dos olhos dos rapazes, além de velhas senhoras que perscrutavam o mundo ao redor com olhos desconfiados e acusadores. Lembrou-se o quanto que em sua infância fora obrigado a frequentar a igreja, ainda mais depois da morte de seu pai, sempre na companhia da mãe, da irmã e da tia.&lt;br /&gt;&lt;i&gt;Quanto de desprezo há nessas mulheres velhas, tanto as moças como as outras, quanto de desprezo pelos instintos básicos da vida, arruinam seu corpo com o ressentimento, mortificam-se na ilusão de alcançar um além-mundo, pobres diabas, veem no próprio pressuposto da vida, na sexualidade, algo de impuro.&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;Ele dobrou em uma rua secundária, bem estreita, que subia em direção ao início da trilha que iria pegar. Havia ali uma livraria onde um velho senhor surdo mantinha empoeirados livros à espera de compradores que raramente apareciam. O Sr. Nietzsche resolveu entrar dessa vez, mais por curiosidade em relação ao livreiro que por causa dos livros, já que nos últimos meses lia bem pouco. Passou lentamente entre as estantes, procurando apenas livros em que farejasse um dia de sol, uma brisa morna vinda do sul, quem sabe o sabor de uvas frescas ou de uma xícara de chocolate espesso e sem gordura. Afastava-se de livros cujo odor remetesse a gabinetes de estudo, bibliotecas e salas de conferência. Notou uma prateleira com diversos livros de Kant e, logo abaixo, a &lt;i&gt;Fenomenologia do Espírito&lt;/i&gt;. Um vento glacial penetrou em suas narinas. Afastou-se. Avançou rápido em direção a uma vistosa edição de &lt;i&gt;O vermelho e o negro&lt;/i&gt;, que exalava um perfume de flores do campo. Quis comprá-lo, mas deu-se conta de que estava sem dinheiro. Talvez voltasse mais tarde. O livreiro ergueu os olhos para aquele senhor altivo, com um vasto bigode que lhe cobria a boca. Pegou uma pequena tábua e escreveu perguntando se era alemão. Nietzsche fez que não com a cabeça e apontou para "Stendhal" escrito no livro e o livreiro logo entendeu que era francês. Abriu um sorriso. Recebeu outro em retorno.&lt;br /&gt;O Sr. Nietzsche saiu da loja decidido a voltar outra hora. Nesse dia, não poderia disperdiçar o sol que se firmava, mergulhar naquela paisagem magnífica. O caminho era em aclive e por ele se podia chegar até o alto do morro, de onde se avistava todo o promontório de Portofino. Assim fez, detendo-se de vez em quando para suas anotações. Carregava sempre consigo um pequeno caderno, sequer parava para escrever os pensamentos que lhe iam surgindo assim, ao ar livre, enquanto festejavam os músculos as alegrias da caminhada. Sentia-se muito bem disposto, depois de anos sofrendo com enxaquecas terríveis, dificuldades para enxergar, dores no estômago. Tivera de abandonar sua cátedra de Filologia Clássica na Universidade da Basileia, mas nesse momento sentia-se como se isso tivesse salvado sua vida, devolvido-lhe a liberdade para pensar por sua própria conta e risco.&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_lWBRbhU-zjo/S7NeJ31C5qI/AAAAAAAAAJk/TsyM2He7hWM/s1600/rapallo.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://3.bp.blogspot.com/_lWBRbhU-zjo/S7NeJ31C5qI/AAAAAAAAAJk/TsyM2He7hWM/s320/rapallo.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;i&gt;O erudito não faz mais que revirar livros. O filólogo bem pode chegar a duzentos num dia! Acaba perdendo a capacidade de pensar por si, apenas responde a um estímulo – um pensamento lido – e se limita a aprovar ou desaprovar, criticar o que já foi pensado por outro. Se não revira, não pensa. Essa é a fórmula para a estupidez.&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;Quando voltou, viu que havia escrito uma dezena de páginas. Satisfeito com as pulsações de seu corpo, dirigiu-se ao pequeno restaurante onde, ali em Rapallo, fazia suas frugais refeições. Numa das mesas, algumas senhoras conversavam enquanto comiam sua massa acompanhada de um assado. O dono do restaurante era um simpatissíssimo napolitano com quem sempre trocava algumas poucas palavras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Ah, Sr. Nietzsche, que belo dia hoje, não, o frio deu uma trégua!&lt;br /&gt;– Um dia excente, sem dúvida.&lt;br /&gt;– Sr. Nietzsche, deixe-me apresentar minha prima Anita e sua cunhada Sra. Bergamasco, que chegaram ontem à cidade, este é o Sr. Nietzsche, professor na Suíça.&lt;br /&gt;– Ex-professor, Sr. Pecolatto.&lt;br /&gt;– Bom dia, Sr. Nietzsche.&lt;br /&gt;– Bom dia, senhoras, sejam bem-vindas.&lt;br /&gt;– Não quer sentar-se conosco, Sr. Nietzsche, estávamos comentando como foi tocante a missa de hoje, sim, e que belo coral.&lt;br /&gt;– Muito agradecido pelo convite, mas tenho algumas anotações para conferir.&lt;br /&gt;&lt;i&gt;A cegueira ante o cristianismo conduz a humanidade à decadência. A moral cristã é uma antinatureza que recebe supremas honras, no entanto, não faz mais que salvar os fracos e impotentes do suicídio, da vergonha diante de si mesmos. Não perceberam ainda que as igrejas não passam de túmulos de um deus morto? Que essas missas não passam de ladainha de um velório horripilante?&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;O Sr. Nietzsche sentou-se em sua mesa habitual, enquanto aguardava sua refeição. Mas as parentes do Sr. Pecolatto arriscaram mais uma tentativa para angariar a atenção daquele distinto senhor. Despertando os olhares e ouvidos de vários outros clientes, uma pergunta da Sra. Bergamasco cruzou o espaço do restaurante:&lt;br /&gt;– Mas diga, Sr. Nietzsche, o senhor foi à missa hoje?&lt;br /&gt;Ele encarou atentamente a velha senhora, que exibia um sorriso ao mesmo tempo amigável e desafiador. Apoiou sua mão esquerda sobre o caderno aberto em cima da mesa, segurou o copo de água com a outra. Os sinos da igreja tocaram, nesse exato momento, as doze horas. &lt;i&gt;Meio-dia é a hora sagrada para aqueles que não crêem em sombras.&lt;/i&gt; O Sr. Nietzsche ergueu seu copo em direção à Sra. Bergamasco, como a oferecer-lhe um brinde.&lt;br /&gt;– Hoje não, senhora, hoje não.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7933450792545074082-1756878831148544271?l=sandrokobol.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sandrokobol.blogspot.com/feeds/1756878831148544271/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://sandrokobol.blogspot.com/2010/03/uma-manha-de-domingo-do-sr-nietzsche.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7933450792545074082/posts/default/1756878831148544271'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7933450792545074082/posts/default/1756878831148544271'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sandrokobol.blogspot.com/2010/03/uma-manha-de-domingo-do-sr-nietzsche.html' title='Uma manhã de domingo do Sr. Nietzsche'/><author><name>Sandro Kobol Fornazari</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/-xTzN-4bkzAc/TdRJ1ORxxmI/AAAAAAAAALo/4H4de0TD-Pc/s220/S6300830.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_lWBRbhU-zjo/S7NdDflgfAI/AAAAAAAAAJQ/SMbwchgURxY/s72-c/rapallo+2.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7933450792545074082.post-368619129783062948</id><published>2010-02-28T15:10:00.001-03:00</published><updated>2010-03-02T08:53:27.499-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Ficção'/><title type='text'>Achado na metrópole</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Quem acompanha as publicações deste blog deve saber que nele eu publico apenas coisas minhas, textos literários, filosóficos, fotografias e vídeos, com exceção para uma troca de emails com meu amigo Daniel, com autorização dele, em que somos dois os autores. E deve saber também que quase todos os meses há uma postagem nova. Acontece que o mês de fevereiro já vem se encerrando e eu estou com pouquíssima inspiração, talvez porque esteja ainda no início de um monte de coisas novas, que só com o tempo virão trazer algum resultado em termos de criação. &lt;br /&gt;Mas eis que, nesta semana, encontrei no metrô algo que me impressionou bastante. Ao lado do banco onde me sentei, havia uma sacola de uma papelaria, com muita coisa amassada e com o que restou de um bloco grande de papel meio amarelo. (Não amarelado de velho, amarelo mesmo, de colorido). Ao puxá-lo pra fora da sacola, vi que em uma de suas folhas, perto da última, havia uma anotação manuscrita. Não havia qualquer identificação, mas podia-se notar que a letra era masculina, menos arredondada e mais inclinada. A leitura dessas anotações me trouxe alguns sentimentos muito fortes, que não consigo explicar nesse momento. O fato é que resolvi transcrevê-las no blog. Deixo, aos leitores de Verticais, o julgamento a respeito de seu valor. Infelizmente sem esperança de que eu possa descobrir quem as escreveu.&lt;br /&gt;&lt;i&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;i&gt;“Sem sujeitos, o japonês que tem a brasília velha e que come a empregada feia, o rapaz que colocou um som potente no carro, o motoqueiro imprudente e apressado que para na avenida para tirar satisfação com o motorista imprudente e apressado, a velhinha ex-inspetora de alunos que vive sozinha e feliz, a doméstica que lava e que esfrega ouvindo o pastor no rádio execrando a vida longe de Jesus, a criança que cresceu mas não sabe se virar sem a mãe motorista, que para em fila dupla, o jornalista que fica treze horas em serviço na redação, o professor com carga horária de sessenta horas semanais, o motorista de caminhão que dirige como motorista de fórmula um, a jovem charmosa que troca olhares na fila do cinema, o homem que finge ser ex-militar porque se envergonha de ser ex-vendedor do mappin, a feirante que entrega sorrindo cada pastel que vende, o doutorando que protelou pela terceira vez a data final de entrega de sua tese, o doutor que protelou pela terceira vez a data final para desistir de prestar um concurso público, o médico que não gosta de gente, gente que odeia médicos, mas que não vive sem eles, a doméstica que foi buscar a mãe no interior da bahia, a mãe da doméstica que resolveu voltar para o interior da bahia, o deslumbrado que agora tem um carro novo, financiado, que pouco importa se anda ou está parado nos congestionamentos, a cantora que precisa aparecer na tv para saber se faz ou não sucesso, os fumantes que ocuparam os espaços públicos em frente aos bares depois da lei contra o fumo, a estudante de pedagogia que desfila diante da plateia da conferência que ela não consegue entender, a mulher linda e infeliz que cansou de ouvir as mesmas conversas dos homens, o pedestre que não consegue atravessar a rua até as nove da noite, se não chover, o casal que mandou os filhos para a casa dos parentes porque a casa em que moram ameaça desabar com a próxima chuva, a mulher que goza somente se recusar o gozo daqueles que a desejam, o motorista de ônibus que enlouqueceu, o travesti com o chapeuzinho do papai noel, o policial que atirou bala de borracha no estudante, o estudante que mal pode esperar pela próxima tragada, os amantes que almoçam toda terça-feira no motel, a mulher sentada no canteiro central da avenida, enrolada em um plástico de lona preta, cercada pelo lixo que catou na rua, conversando com tantos amigos imaginários, lançando-se no longo caminho alucinatório em que ela desta vez fosse esse homem que escreve num bloco amarelo observações inúteis a respeito dos seres que coabitam com ele uma cidade de extremos… De um lado uma linguagem que se afirma multiplicando-se naquilo que designa, de outro lado, múltiplos designáveis que não podem ser empenhados em qualquer linguagem. Um lado dentro do outro, a lucidez inócua, a esquizofrenia.” &lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7933450792545074082-368619129783062948?l=sandrokobol.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sandrokobol.blogspot.com/feeds/368619129783062948/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://sandrokobol.blogspot.com/2010/02/achado-na-metropole.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7933450792545074082/posts/default/368619129783062948'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7933450792545074082/posts/default/368619129783062948'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sandrokobol.blogspot.com/2010/02/achado-na-metropole.html' title='Achado na metrópole'/><author><name>Sandro Kobol Fornazari</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/-xTzN-4bkzAc/TdRJ1ORxxmI/AAAAAAAAALo/4H4de0TD-Pc/s220/S6300830.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7933450792545074082.post-4382840380965649972</id><published>2010-01-05T18:47:00.003-02:00</published><updated>2010-01-11T18:58:23.628-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Ficção'/><title type='text'>emails</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: center;"&gt;I&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Neste fim de semana, presenciei duas agressões covardes, em diferentes momentos, por estes sujeitinhos nefastos que estão brotando como ratos nas academias: uma, por puro despeito, em um flanelinha que eu mesmo acudi; depois, agrediram um amigo, sem qualquer motivo relevante, por uma estupidez, por uma insignificância, por uma bobagem de bêbado – e por trás, sem chance de defesa, sem sequer saber porque estava sendo vítima de violência, e, em seguida, mais exposto ainda, no chão, foi cruelmente chutado nas costelas. A civilização "exteriorizada", que é pura artificialidade, a juventude oca, é o padrão pasteurizado que estão nos oferecendo; é o peixe que se criou, que é pescado, e que é posto no aquário – e a tendência é a deterioração ainda pior da sociedade, porque estamos concebendo apenas a primeira aparição destes tipos criados na era do consumo total. O miserável é criado no ambiente da mais pura inveja e rancor, e quer ser este estúpido vencedor da nossa época; e o "afortunado" agora é rebento destas amebas que "resolvem" a felicidade através do dinheiro. É horroroso! É inominável! É odioso e nojento! É de causar vômitos!&lt;br /&gt;Enfim, é o que eu vim pensando no ônibus e o que eu nem imaginava que voltaria quando li o seu texto. Por aqui, como você disse, continuo me comprazendo com a autopiedade, e sua recomendação é precisamente aquilo que descrevo aos meus amigos como o item faltante: força. Não sei o que será necessário para retomar aquele ímpeto – talvez uma grande catástrofe individual! Por onde você anda?!&lt;br /&gt;Abraço,&lt;br /&gt;D.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;II&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Profissionalmente, minha catástrofe individual foi SC. Larguei tudo e voltei a SP, estou fazendo um pós-doutorado sobre Deleuze. Mudei faz um mês e pouco, ainda estou me readaptando, retomando algumas boas coisas de que abri mão quando fui para Florianópolis viver junto às forças da natureza, buscando um novo ritmo, humanizante talvez. Mas aprendi que a natureza não humaniza, o que humaniza é o convívio social, por mais paradoxal que isso possa parecer. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Li seu texto &lt;/span&gt;&lt;a style="font-style: italic;" href="http://danielbandini.blogspot.com/2009/03/gab.html"&gt;[gab]&lt;/a&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;. Meu, você escreve muito bem, tem um vocabulário fantástico, sem afetações e está construindo um estilo próprio. Falta a coragem para a ficção, parece: fazer esse eu ser mais que o escritor, ou menos talvez, fazer a gab, por exemplo, perder sua realidade, explodir sobre o mundo, refazer-se como outra coisa, em suma, você precisa abandonar esse princípio de realidade que aprisiona suas histórias. Talvez uma catástrofe individual seja ser capaz de destituir-se de um pretenso domínio sobre si, sobre as emoções, pensamentos, ações: tornar-se artista. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Afinal, o que acontece quando esse sujeito retorna a sua casa, espreitado pelo fantasma do ser amado? &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Aceite minha franqueza como sinal de admiração. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Abraço,&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;S.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;III&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Eis algo sobre o qual eu me questiono constantemente: como escrever um romance desprovido deste tom autobiográfico? como ir além do princípio de realidade e forjar algo efetivamente estético? Acredito que esteja me faltando uma ideia norteadora – e isto não é tão fácil de obter quando estamos sozinhos, isto é, quando não se frequenta uma oficina literária, quando não se tem um mestre por perto, quando não se pode dialogar com ninguém ao nosso redor... Este texto da [gab] foi, antes de tudo, uma experiência descritiva. Eu queria conhecer o meu poder de adjetivação e de dar seguimento a uma narrativa (ainda que eminentemente curta) – reconheço que o próximo passo deveria ser aquele mergulho no "ser" que cava as entranhas assolado pelo espectro do amor. Estou preparando um trecho em que faço uma viagem mental (sem nenhuma relação com o [gab]): é impressionante como eu pareço estar possuído de uma descarga de imagens e visões... Enfim, como você sabe, eu sou altamente grato pelas críticas - sejam elas quais forem (mesmo tremendas bobagens), especialmente quando são criteriosas como habitualmente são as suas.&lt;br /&gt;Sobre Floripa: eu sempre me perguntei como você conseguiria espaço naquelas universidades repletas de conluios, coronelismo barato, vaidosos limitados, etc. Há um domínio expressivo das formas tradicionais de ensino e de organização pedagógica (inclusive, na política acadêmica). Li o seu texto sobre "uma educação nietzschiana" e me recordei do nosso embrionário grupo de estudos: para mim, sobretudo, era a potencialização de uma "vocação". Ali, eu pude perceber que o meu destino estava selado, que havia algo no meu íntimo que ansiava por aquela espécie de conhecimento – e que, principalmente, eu me saía melhor e me comprometia mais com um tipo descentralizado de ensino. Havia compartilhamento, mas, pode estar certo, também havia uma tácita disputa, havia emulação e debate (nem que fosse para melhorar nossa capacidade de raciocínio e de lógica discursiva – e isto só é possível nesta relação de aparente simetria que existe nas formas descentralizadas: no modo tradicional, na verticalização antagônica entre professor e aluno, a formação da lógica mental ocorre no silêncio, sem compartilhamento e praticamente sem o teste constante do debate).&lt;br /&gt;Espero que esta nova etapa lhe seja exitosa – não só no campo profissional como no seu convívio pessoal. De vez em quando vai bater a saudade de Floripa, mas, na primeira vez em que você voltar pra lá, em visita, perceberá a cidade lhe dar um tapa da cara e bater a porta atrás de você. Somos os excedentes dela.&lt;br /&gt;Aviso-lhe quando postar o texto. Ele tem um estilo quase ofegante e opressor – como um desabafo (o que, no fundo, ele é). Agradeço pelos elogios: vindos de você são muito importantes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abraço,&lt;br /&gt;D.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;IV&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Seu novo texto possui a velocidade do pensamento, percursos subterrâneos, às vezes saltos de rãs no escuro, umas por cima das outras, e digo isto assim, depois de uma primeira leitura. Sinto que, quando você atingir uma idéia aglutinadora, diretora de seu ímpeto narrativo, isto é, quando você souber aonde quer chegar, que história merece ser contada e que só você pode contar, sem excessos, sem perder-se na estilização, mas sem perder a velocidade, o subterrâneo e os saltos, quando você compuser tudo isso e, abrindo-se para essa externalidade que atravessa seu corpo, sem que seu corpo seja esfacelado por ela (ou que seja esfacelado mas retorne recompondo-se na diferença), aí teremos um grande feito literário, aquele a que você está destinado desde sempre.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Mas você se enganava sobre o retorno a Florianópolis, de que eu sofreria a indiferença fingida e violenta ao retornar a ela. Não, isso foi antes, no tempo que vivi lá. Agora quando retornei fui eu quem olhei de soslaio para aquela insipidez, estagnação, desestímulo e percebi de vez como sou muito maior do que tudo aquilo, como as grandes tarefas exigem paisagens habitadas. E nem a Copa do Mundo ela foi capaz de conquistar com seu olhar dissimulado. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Vamos em frente. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Abraço, &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;S.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;V&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;A sensação que eu tive em Floripa era de ter sido engolido e regurgitado. Eu não posso também ocultar que, a toda vez que retorno, vejo-a com um olhar superior. Tudo o que lá é agitação cheira-me a feira. Tudo lá é mediocremente plagiado. Quando você respira um ar diverso daquele, não cabe mais naquele ninho de ratos.&lt;br /&gt;Eu odeio Porto Alegre, e ainda guardo boas reminiscências de Floripa, em razão das minhas atividades. Está aí tudo resumido! – portanto, o problema se situa menos nas cidades do que em mim mesmo.&lt;br /&gt;Concordo com a ausência de uma "ideia aglutinadora". Falta-me, antes de tudo, um objetivo claro. Estou convicto de que posso escrever, e de que sou um escritor; porém, sofro de uma anemia temática. Eu não consigo abrir as janelas.&lt;br /&gt;Você ainda precisa me explicar isto: "abrindo-se para essa externalidade que atravessa seu corpo, sem que seu corpo seja esfacelado por ela (ou que seja esfacelado mas retorne recompondo-se na diferença"). (Deleuze passou por aqui). Vi aqui um detrito de dialética.&lt;br /&gt;Abraço,&lt;br /&gt;D.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;VI&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Acredito num corpo como expressão de potências, um corpo-sem órgãos, onde a distinção entre o dentro e o fora é ilusória. Um grito que ressoa na madrugada é interior ou exterior ao corpo que o produz? A voz sensual que suspira delícias ao ouvido do amante e o atravessa de desejo, é o fora ou o dentro do ser desejante? O corpo sofre a ação de potências que se entrecruzam com as dele e é a violência desses encontros que desperta o pensamento, sem elas o pensamento permaneceria latente em nós; pode ocorrer que essas forças sejam nocivas, desagregadoras, mas nem toda desagregação é definitiva, novas composições de forças podem ser mais afirmativas que as predecessoras. Nesse sentido, pode-se dizer que morremos muitas vezes em vida, para nos tornarmos à altura de nossa tarefa. Não há dialética nesse movimento porque o negativo não retorna nessas recomposições, ele é simplesmente eliminado, o que retorna é o excessivo, essa intensidade de potência que se libera do peso da identidade, depois de fremer nas profundezas. A diferença se define por essa potência intensiva. Que Deleuze reverbere pelas margens do Guaíba e que te ajude a arrombar janelas. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Abraço, &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;S.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7933450792545074082-4382840380965649972?l=sandrokobol.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sandrokobol.blogspot.com/feeds/4382840380965649972/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://sandrokobol.blogspot.com/2010/01/emails.html#comment-form' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7933450792545074082/posts/default/4382840380965649972'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7933450792545074082/posts/default/4382840380965649972'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sandrokobol.blogspot.com/2010/01/emails.html' title='emails'/><author><name>Sandro Kobol Fornazari</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/-xTzN-4bkzAc/TdRJ1ORxxmI/AAAAAAAAALo/4H4de0TD-Pc/s220/S6300830.JPG'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7933450792545074082.post-7082356684202528233</id><published>2009-11-14T22:13:00.002-02:00</published><updated>2009-11-15T12:00:50.621-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Ficção'/><title type='text'>1609</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Fazia um daqueles calores absurdos em São Paulo, em que as sombras das árvores e das marquises são disputadas pela multidão de passantes, em que estar dentro de um carro pode se tornar uma atividade de alto risco porque podemos derreter ali, fundindo-nos aos bancos de tecido rústico. Era melhor não sair de casa. Mas era tarde demais, já me via ali na Paulista. Olhando em direção às filas de carros que aguardavam o verde, o reflexo da luz nos parabrisas dava a impressão de que eu via um lago, com sua promessa de alívio e cura do sufocamento em que meus sentidos fremiam. Delírio, delírio, mais valia estar num deserto de verdade.&lt;br /&gt;Comprei o livro que havia encomendado e resolvi voltar logo para casa, mesmo sentindo-me no jardim das delícias por causa do ar condicionado da livraria. Talvez eu pudesse ir no cinema, para descansar um pouco dos barulhos do mundo, do marulhar dos motores a combustão. Mas aí eu teria de passar no banco antes, porque havia gastado o dinheiro com o livro. O banco ficava perto do ponto de ônibus, difícil saber qual dos dois eu escolheria, tirar dinheiro e ir ao cinema ou pegar o ônibus pra casa, quem sabe no caminho eu topasse com uma decisão.&lt;br /&gt;Tristes trópicos era o livro que eu levava em mãos. Voltei pra livraria, pedi um café. O que será que é mais lucrativo para a livraria, vender livros ou cafés? Eletrônicos, sem dúvida, mas não era o caso dessa, que não os vendia. Comecei a ler o livro ali, torcendo para que meu cafezinho durasse muitas horas, porque com ele eu tinha exaurido meus últimos trocados. Um casal sentou ali do meu lado, viram o que eu lia:&lt;br /&gt;– Que pena a morte do Lévi-Strauss, não.&lt;br /&gt;– Pena? Como assim, ele já tinha cem anos, não ia durar pra sempre…&lt;br /&gt;Hahá, ri por dentro, não foi muito simpático o que eu disse, mas não pude evitar. Um pouco constrangido por meu comentário, ele replicou:&lt;br /&gt;– Ele vai sim durar para sempre, em sua obra, blablablá…&lt;br /&gt;Clichês, como me irritavam clichês:&lt;br /&gt;– Ah sim, claro, você tem razão. Com licença.&lt;br /&gt;Tive de sair dali, de meu refúgio do calor da cidade, decidiir pra casa ler o livro, se a vizinha maluca não resolvesse ouvir seu rock-bíblia àquela hora da tarde. Mas o casal só quis ser simpático e eu saí de lá rispidamente. Por que será que sempre ajo assim quando as pessoas são simpáticas comigo? Deve ter algo a ver com minha mãe, a última vez que ela foi simpática comigo foi quando lhe contei que minha gatinha havia morrido trucidada pelos cães da vizinha. Ela disse:&lt;br /&gt;– Pelo menos você tem alguma coisa a menos pra se preocupar.&lt;br /&gt;Mas eu não tinha mais tempo a perder com minha mãe, tinha de voltar logo pra casa, ligar o ventilador e… Nesse exato momento, o mundo parou.&lt;br /&gt;Sim, era ela. Só podia ser. Meu mais antigo amor, o primeiro, talvez o único, sim. Apenas com o delicado problema de que ela nunca soube disso. Dez anos depois, ela estava ali, passando pela calçada, empurrando um carrinho de bebê. Dez anos? Que nada, fazia bem mais tempo desde que ela desaparecera. Ela tinha casado com não-sei-quem-cheio-de-dinheiro. Comecei a segui-la, ela desceu a rua Augusta, com rapidez, fugindo do calor, provavelmente. Entrou numa galeria, protegida do sol, tirou o bebê do carrinho, abraçando-o e virando para trás, dando de cara comigo. Disse ela:&lt;br /&gt;– Não acredito que é você, meu deus, há quanto tempo?&lt;br /&gt;Minha surpresa foi tão grande que mal pude retribuir o abraço.&lt;br /&gt;– Mil anos, não?&lt;br /&gt;– Também não exagera, né?&lt;br /&gt;– É seu filho?&lt;br /&gt;– Não, não tenho filhos, é de uma amiga, que foi trabalhar…&lt;br /&gt;– Você não tem filhos?&lt;br /&gt;– Não, não tenho.&lt;br /&gt;– Nossa, eu te imaginava gor..., quer dizer, com uma dezena de filhos…&lt;br /&gt;Não, eu não disse isso, sim disse, caralho…&lt;br /&gt;– Hahá, não, não. Meu ex-marido…&lt;br /&gt;Nem ouvi o que veio depois, só ouvi ex-marido.&lt;br /&gt;– Então, você não está casada?&lt;br /&gt;– Não, e você?&lt;br /&gt;– Também não. Você sumiu.&lt;br /&gt;– Não sumi, não, moro a três quadras daqui…&lt;br /&gt;– Então fui eu que sumi.&lt;br /&gt;– É…&lt;br /&gt;– Você está linda.&lt;br /&gt;– Obrigada, você também não está de se jogar fora.&lt;br /&gt;Puta merda, por essa eu não esperava. Lembrei do livro, do ventilador, dos cães, de minha mãe, do rock-bíblia… Não tinha mais nada pra dizer. Ela cantava baixinho pro bebê, que começava a acordar.&lt;br /&gt;– Como é o nome dele?&lt;br /&gt;– Giovane.&lt;br /&gt;– Ah.&lt;br /&gt;– Nossa, foi uma supresa mesmo te encontrar, blablablá.&lt;br /&gt;Nem conseguia ouvir o que ela dizia, hipnotizado que estava com o simples fato de ela estar ali.&lt;br /&gt;– Eu te amo.&lt;br /&gt;Não, isso eu não disse, nem fazia o menor sentido. Seria engraçado se eu tivesse dito. Não, ao invés disso, eu disse que precisava ir.&lt;br /&gt;– Ah, já? Não quer tomar um sorvete no shopping?&lt;br /&gt;– Ah, quero sim.&lt;br /&gt;Fomos ao sorvete no shopping, ela cada vez mais linda, insinuante, o desejo se propagava em mim com a força de um verão nos trópicos.&lt;br /&gt;– Sabe, preciso ir mesmo, espero te reencontrar em breve.&lt;br /&gt;– Ah, me liga, anota o telefone.&lt;br /&gt;– Tá.&lt;br /&gt;– Foi muito bom te encontrar, blablablá…&lt;br /&gt;– A gente se vê.&lt;br /&gt;É. Fui embora. Pensando que talvez voltasse a encontrá-la por ali. E que dissesse a ela o quanto ela era especial e o quanto eu a faria feliz se tivesse uma chance, apenas uma. Quando saí, o tempo havia virado assim, de repente, como só em São Paulo era possível. A chuva caía em grossas gotas. Corri para o ponto. Antes, passei pelo banco para tirar dinheiro. A senha: 1609, a data do aniversário dela. É, acho que eu a havia perdido para sempre, que eu precisava perdê-la. Ao menos, se ela não tivesse sido tão simpática comigo…&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7933450792545074082-7082356684202528233?l=sandrokobol.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sandrokobol.blogspot.com/feeds/7082356684202528233/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://sandrokobol.blogspot.com/2009/11/1609.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7933450792545074082/posts/default/7082356684202528233'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7933450792545074082/posts/default/7082356684202528233'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sandrokobol.blogspot.com/2009/11/1609.html' title='1609'/><author><name>Sandro Kobol Fornazari</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/-xTzN-4bkzAc/TdRJ1ORxxmI/AAAAAAAAALo/4H4de0TD-Pc/s220/S6300830.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7933450792545074082.post-629106380683250787</id><published>2009-09-11T19:11:00.003-03:00</published><updated>2009-09-16T09:27:00.710-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Poema'/><title type='text'></title><content type='html'>O labirinto que de fato amedronta:&lt;br /&gt;encruzilhada do tempo&lt;br /&gt;o presente se vive como lembrança&lt;br /&gt;e como futuro&lt;br /&gt;as aspirações e desejos impossíveis enfim realizados.&lt;br /&gt;Todos os caminhos percorridos na velocidade infinita&lt;br /&gt;e todos trazem de volta ao mesmo:&lt;br /&gt;verdadeira espiral do tempo.&lt;br /&gt;Ao invés de nos lançarmos na distância criadora,&lt;br /&gt;afundamos mais e mais em nós, sem mais, nem menos,&lt;br /&gt;ah, quisera eu viver lá nesse instante sem voz&lt;br /&gt;em que a encruzilhada habita, liberta, a memória&lt;br /&gt;estraçalhando a carne com meus dentes de urso.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7933450792545074082-629106380683250787?l=sandrokobol.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sandrokobol.blogspot.com/feeds/629106380683250787/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://sandrokobol.blogspot.com/2009/09/o-labirinto-que-de-fato-amedronta.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7933450792545074082/posts/default/629106380683250787'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7933450792545074082/posts/default/629106380683250787'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sandrokobol.blogspot.com/2009/09/o-labirinto-que-de-fato-amedronta.html' title=''/><author><name>Sandro Kobol Fornazari</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/-xTzN-4bkzAc/TdRJ1ORxxmI/AAAAAAAAALo/4H4de0TD-Pc/s220/S6300830.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7933450792545074082.post-7241479612736950720</id><published>2009-05-15T17:42:00.005-03:00</published><updated>2009-05-15T18:43:11.838-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Ficção'/><title type='text'>Gabriela</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/_lWBRbhU-zjo/SfibTj-rTPI/AAAAAAAAAEU/P7NVR5NALzc/s1600-h/theseus-y-el-minotauro.gif"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 0pt 10px 10px; float: right; cursor: pointer; width: 244px; height: 320px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_lWBRbhU-zjo/SfibTj-rTPI/AAAAAAAAAEU/P7NVR5NALzc/s320/theseus-y-el-minotauro.gif" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5330180919370927346" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;"Onde você está? Estou no carro, no posto, em frente da loja. Ah, já estou indo aí." Quase uma hora esperando Gabriela chegar, várias latinhas de cerveja enquanto observava a chegada das pessoas, adolescentes na maioria, diversos casais de meninas de mãos dadas. Ela estava ali bem do lado do carro, vestindo alguns centímetros quadrados de pano, um vestido que generosamente se retinha acima de suas coxas e deixava descobertas suas costas. Um corpo esguio, que reforçava o apelo sensual de seu quadril. Um pouco sem fôlego, apaguei o carlton, saí do carro. Ela: "Faz tempo que está aí? Não, acabei de chegar. Ah, vem vou te apresentar meus amigos: Aninha, Mari, Sol, Júlia, a Júlia também é professora, e o Robson. Oi, oi, oi, e aí?"&lt;br /&gt;Foi de manhã, depois da aula, que Gabriela me convidou pra ir dançar, com ela e com uns amigos. "Ah, mas meus amigos são gays, não tem problema, né? Claro que não, mas esse lugar é só pra gays? É, mas é superlegal, você vai adorar, e nem encana que está escrito em sua testa que você é hetero, ninguém vai te incomodar."&lt;br /&gt;"Vocês esperam um pouco, vou estacionar o carro." As pessoas não paravam de chegar, faziam fila em frente da loja de conveniência do posto para comprar cigarro e bebida, depois iam para a fila da boate. Nossa, há quantos anos não ia num lugar assim, que estilo têm essas pessoas. Mas Gabriela se sentia em casa, que linda, que simpática, sorrindo para todos, brincando com seus amigos. Não via a hora de morder aqueles lábios, mas ela dissimulava bem, parecia que estava indiferente à minha presença. Bem, eu já conhecia sua história, sabia de seu fracassado casamento, que a fez protelar os estudos, sabia que não queria relacionamentos sérios, ao que eu não tinha nada a objetar. Sim, sua boca aguardava a minha, seu vestido aguardava um leve gesto para deslizar por sua cintura e ser lançado ao chão, expondo seus fartos seios, seus mamilos duros que se entreviam sob o leve tecido. Acho que ela não está de calcinha e se está deve ser ínfima, mas preferia que ela tivesse pelos pubianos, não entendo essa moda de raspar tudo, os pelos dão mais equilíbrio, dão mais graça à mulher.&lt;br /&gt;"Vamos indo, vem, não precisa ir na fila, conheço o pessoal." Mas o que era essa mão dada com a mão do, como era mesmo o nome do amigo dela? "Gabriela, ele é seu namorado?" Era melhor perguntar agora, antes de entrar, gastar uma boa grana pra ficar sozinho lá dentro, ficar sem ela. "O Robson?" É, o Robson, um lindo rapaz de vinte e poucos anos, com um jeitinho tímido, ela só podia estar a fim dele, o que explicaria seu ar indiferente em relação a mim. "Robson, ele perguntou se você é meu namorado, ah, ha, o Robson é gay." Ai, que alívio, e que vergonha também, mas eu tinha de perguntar, agora o caminho está livre, ansiedade, ansiedade, não consigo tirar os olhos de seu rosto, suas pernas, seu longo cabelo liso, suas pernas, seu quadril. Ela conseguiu fazer todo mundo entrar, furando a fila, quase fiquei pra trás, mas o segurança deve ter percebido os traços do desespero tomando conta de meu rosto e me puxou pra dentro.&lt;br /&gt;Mas ainda tinha uma fila lá na entrada, para pagar, nossa, que caro, professor acha tudo caro. "Eu estava contando pra Sol sobre Nietzsche, ela está desesperada comigo porque me tornei pagã! Pagã, que bacana. É, queria te agradecer por isso, suas aulas me ajudaram a me livrar de algumas culpas que eu sentia… e ressentimento também, casei muito cedo, era da Igreja Batista, ia a todos os cultos, você acredita?" Não, não acredito. "Batista é? É, Batista." Sol olhou pra mim estranho, acho que não foi com minha cara. Tinha muita gente ali na entrada, as meninas foram subindo, fiquei preso na aglomeração. Robson chegou perto, depois de um tempo, conseguimos chegar até os seguranças, que nos revistaram. Robson: "Aproveita que até a uma os drinques valem por dois. Quê?" Conforme íamos subindo a escada o som ficava muito alto. "Cada drinque vale por dois! Ah, valeu."&lt;br /&gt;Do topo da escada se avistava toda a boate, cada vez mais cheia, pessoas dançando música eletrônica, muita luz ritmada pelas batidas do som. Caminhei por todo o lugar, com garrafinhas de cerveja que valiam por duas, a pista de dança estava cheia, foi bom ter percebido logo que ela é giratória, ou melhor, tem dois discos que giram um para cada lado, carregando consigo dezenas, talvez centenas de pessoas dançando. Meninos se beijando nos cantos mais escuros e nos cantos mais claros, alguns dançando sem camisa à vista dos outros. Já estava me excedendo na cerveja quando finalmente encontrei Gabriela. "Ei, fica aqui um pouco. Gostou do lugar? Legal, bem. Eu venho aqui direto, arruma um cigarro? Claro." Acendi o cigarro pra ela: "Que bom que você me convidou. Ah. Você está linda, sabia?" Ela se aborreceu um pouco com o elogio, deu um passo para o lado, um gole de cerveja, um trago no cigarro, entretendo-se consigo mesma, depois soltando seu corpo ao ritmo do som. Sol a puxou para um canto, meia-luz, tocou seu rosto, deu um beijo na boca de Gabriela, ali, na minha frente, suas mãos deslizaram pelas costas de Gabriela e a puxaram para junto de seu corpo. Ficaram se beijando ainda algum tempo.&lt;br /&gt;"Preciso sumir daqui." Pensei, mas já estava muito alcoolizado para isso, fui ao banheiro masculino, cheio de gente de todos os sexos, conversando alegremente. Parei um pouco ali, em frente do enorme espelho, às vezes olhava o espelho e não me via, via meu pai. Como eu podia me livrar daquele rosto que me observava tão atentamente, que esperava de mim o que eu não podia ser? Levei ainda um tempo observando aquela cena refletida no espelho, sem saber se eu de fato fazia parte dela. Estava usando o mictório quando Gabriela chegou por trás de mim: "Ai, desculpa, eu queria ter dito antes que estava ficando com a Sol. Não tudo bem, só espera eu terminar aqui. Tudo bem, então você não se importa? Me importo sim, é que gosto de você. Gosta de mim? É, acho que estou apaixonado. Apaixonado, mas eu não sou hetero. Não, nem um pouco? Não, já disse, estou namorando com a Sol. Você não disse que estava namorando." Essa conversa não ia levar a nada, disse que ia pegar uma bebida e Gabriela foi junto. "Olha, agora estou me sentindo mal, te convidei pra vir aqui… Dá um beijo. Não, a Sol é superciumenta. Gabriela, por que você me convidou pra vir aqui?" Um tumulto perto do balcão arrastou-nos para sentidos opostos, um pouco à distância, pude ver seus olhos umidecerem, virou-se e perdeu-se na multidão.&lt;br /&gt;"Vai se foder, cara, não vê que a Gabriela é minha, filho da puta, sai fora." Era Sol. Mostrou que estava insegura e percebi, então, que eu ainda tinha chances com Gabriela. "Ô Sol, nem adianta, vou roubar ela pra mim, tenho uma coisa pra ela que você não tem." Ela fechou os punhos. Preparei-me para esquivar. Por sorte, ela me lançou apenas um olhar de puro ódio e se foi.&lt;br /&gt;Alguns minutos mais tarde, vi de longe as duas discutindo, Gabriela deu a volta, rodopiou com a pista, em meio à multidão, olhou pra cima, me viu, deu outra volta, foi em direção à escada, subiu na minha direção, me puxou pelas mãos. "Vem, vamos lá fora um pouco." Saboreei, naqueles instantes em que era conduzido assim por ela, a libertação de todas as minhas aflições, o mundo se recompôs diante de minha embriaguez. Sim, eu poderia amá-la para sempre, só precisava de uma chance. Lá fora, o ar fresco me fez bem, segurei Gabriela: "Onde você está me levando? Ali no posto, o Robson foi comprar cigarro." Paramos perto da loja do posto. Tentei puxá-la para perto, mas ela resistia. Beijei a rosa tatuada em seu ombro direito. "Não vou ficar com você nunca. Nunca? Nunca. Por quê? Olha, meu casamento foi uma merda, não, não foi uma merda, David é um amor, só que eu sou muito nova, quero fazer um monte de coisas… não quero que ninguém se apaixone por mim, a Sol nem me conhece, você nem me conhece… vou me formar, vou passar num concurso… olha o Robson, vem."&lt;br /&gt;Soltei suas mãos, o que mais eu poderia fazer? Uma lucidez mais forte que a vida tomou conta de tudo, a tristeza. "Vou embora. Mas você não está bem pra dirigir. Estou sim, o ar fresco… Fica mais um pouco, vamos voltar pra dentro. Não, vou embora." Observei Gabriela caminhando, de volta para a boate, olhou pra trás, os mesmos olhos tristes, o mesmo desespero em sua boca. Senti uma ternura infinita por ela, queria mostrar a ela que nem todo relacionamento é igual, que ela não precisa afogar seus planos, anular a si mesma para viver um amor, que o amor podia até mesmo libertá-la dessas ridículas expectativas construídas em torno de sua vida. Daria o mundo todo pra ela. Por que caminhos inóspitos ela se perderia, eu me perderia, até aprender a descrer de si mesma? Ela descera ao labirinto e fora salva por Teseu, sem saber que era Teseu quem devia ser morto para que ela esposasse o Minotauro.&lt;br /&gt;Lembro que cheguei no carro, sentei, dei a partida. (…) Robson bateu na janela, abri. (…) Gabriela segurava minha cabeça que se apoiava em seus ombros. O carro em movimento. (…) A rosa. (…) Um elevador abrindo a porta. (…) "Toma isso aqui, vai te fazer bem" (…) Vem, tira o tênis. (…) Desejo. Mãos macias em meu corpo. Prazer. Gozo.&lt;br /&gt;Acordei sozinho numa cama de casal em um quarto em que nunca havia estado. A porta estava aberta e por ela entrava uma luz que indicava ser dia. Gabriela estava dormindo num colchão ao lado da cama, abraçada com Sol. Um leve lençol permitia ver os contornos de seus corpos nus, ombros e pernas à mostra. Eu também estava sem roupas, sem lençol, sem nada. Gabriela acordou, me olhou, ergueu-se em minha direção. "Que bom que terminou tudo bem." Deu-me um beijo na boca, seus seios roçaram em meus braços. O desejo redespertou-se em mim. Nesse instante, ouvi o som de um chuveiro, virei o rosto com uma expressão incômoda. Gabriela sorriu: "O Robson vai na padaria daqui a pouco, vai fazer um café pra gente".&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7933450792545074082-7241479612736950720?l=sandrokobol.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sandrokobol.blogspot.com/feeds/7241479612736950720/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://sandrokobol.blogspot.com/2009/05/gabriela.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7933450792545074082/posts/default/7241479612736950720'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7933450792545074082/posts/default/7241479612736950720'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sandrokobol.blogspot.com/2009/05/gabriela.html' title='Gabriela'/><author><name>Sandro Kobol Fornazari</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/-xTzN-4bkzAc/TdRJ1ORxxmI/AAAAAAAAALo/4H4de0TD-Pc/s220/S6300830.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_lWBRbhU-zjo/SfibTj-rTPI/AAAAAAAAAEU/P7NVR5NALzc/s72-c/theseus-y-el-minotauro.gif' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7933450792545074082.post-6120170779672856877</id><published>2009-05-01T16:13:00.001-03:00</published><updated>2009-05-01T16:15:53.978-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Ficção'/><title type='text'>A cidade invisível</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/_lWBRbhU-zjo/SftKMb23g8I/AAAAAAAAAEc/tjefOWrcYzo/s1600-h/klee-highway.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer; width: 254px; height: 320px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_lWBRbhU-zjo/SftKMb23g8I/AAAAAAAAAEc/tjefOWrcYzo/s320/klee-highway.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5330936161419887554" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Nem todos os habitantes de F, principalmente os mais antigos, sabem que sua cidade é uma ilha. Isso acontece porque quem se afasta do centro, sempre é retido por amplas avenidas em que transitam milhares de automóveis sem parar um segundo, de cá pra lá e de lá pra cá. Ainda que fosse possível atravessar caminhando alguma dessas avenidas sem ser atropelado, não há muitas razões aparentes para isso, já que do outro lado, existem apenas gigantescas lojas que vendem carros, peças para carros e coisas afins. As lojas estão enfileiradas, coladas umas nas outras, todas de frente para a avenida e, segundo imaginam os que chegaram a F mais recentemente, de costas para o mar. Assim, quem quisesse se aventurar a chegar até o mar, teria basicamente três gigantescos obstáculos: atravessar em meio ao fluxo inexorável de veículos, encontrar uma passagem inexistente entre os prédios contíguos que se enfileiram por dezenas de quilômetros e a alternativa que resta, a mais acessível, que é por um dos cento e trinta canais que, costurando em meio aos bairros, acabam por desembocar no mar. Este é o mais feroz obstáculo, precisamente, por dois motivos. Primeiro, porque as casas e ruas vão espremendo os canais, de modo que, em pelo menos uma centena deles, apenas canoas de, no máximo, um metro de largura e dois de comprimento conseguem contornar as colunas e paredes fincadas em seus leitos; em alguns trechos, o próprio canal foi cimentado e as canoas não podem ir além. O segundo motivo é que, embora os outros canais sejam bem mais largos, ali se navega junto de todos os resíduos produzidos por todos os moradores de F. Suas águas são caudalosas e espumantes, seu cheiro fétido é sentido em todos os lugares da ilha, exceto nas lojas do lado de lá da avenida e, quem sabe, no interior dos automóveis.&lt;br /&gt;Quem quer que chegue em F, seja pelo ar ou pelo mar, é surpreendido pela visão de imensas manchas escuras no desembocadouro dos canais, e pelo cheiro pouco aprazível que espelem. Mas, ainda assim, as pessoas não param de afluir a F, seduzidas pelas promessas de financiarem um apartamento com vistas para o mar. Consta também que ali se podem comprar carros pela metade do preço.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7933450792545074082-6120170779672856877?l=sandrokobol.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sandrokobol.blogspot.com/feeds/6120170779672856877/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://sandrokobol.blogspot.com/2009/05/cidade-invisivel.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7933450792545074082/posts/default/6120170779672856877'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7933450792545074082/posts/default/6120170779672856877'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sandrokobol.blogspot.com/2009/05/cidade-invisivel.html' title='A cidade invisível'/><author><name>Sandro Kobol Fornazari</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/-xTzN-4bkzAc/TdRJ1ORxxmI/AAAAAAAAALo/4H4de0TD-Pc/s220/S6300830.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_lWBRbhU-zjo/SftKMb23g8I/AAAAAAAAAEc/tjefOWrcYzo/s72-c/klee-highway.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7933450792545074082.post-7755735324456417027</id><published>2009-04-27T20:51:00.004-03:00</published><updated>2009-04-28T10:57:38.703-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Ficção'/><title type='text'>O imperador da ilha</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/_lWBRbhU-zjo/SfZHKWjMSzI/AAAAAAAAAEM/zTWI8NKQAIo/s1600-h/smallImage.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer; width: 320px; height: 267px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_lWBRbhU-zjo/SfZHKWjMSzI/AAAAAAAAAEM/zTWI8NKQAIo/s320/smallImage.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5329525452217010994" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;“Aí depende do que você chama de amizade…”&lt;br /&gt;Certo, a gente estava ali há apenas quarenta minutos e as coisas já começavam a ir mal. Será que algum de nós achava mesmo que éramos amigos? Fazia uns três anos que não nos encontrávamos. Mas precisava ser amigo para ir tomar um chope no bar?&lt;br /&gt;“Cara, amizade pra mim é isso aqui, poder sair e lembrar das coisas que a gente fez, rir das mancadas.”&lt;br /&gt;“Mas isso não dá o direito de fazer esse tipo de acusação, sem noção esse cara.”&lt;br /&gt;“Não fiz acusação nenhuma, apenas disse uma coisa que aconteceu e todo mundo fez que esqueceu.”&lt;br /&gt;“Acontece que só você lembra dessa merda, quem será que está errado?”&lt;br /&gt;Ele tinha razão. Ninguém se lembrava. A não ser o Júlio. Nenhum dos outros dois, nem eu, estava na cara que o Júlio estava delirando. Mesmo já tendo passado quinze anos, ninguém esqueceria duma coisa daquelas.&lt;br /&gt;“Olha, eu também tentei esquecer, é melhor esquecer do que conviver com isso, sorte a de vocês, então, se não lembram.”&lt;br /&gt;“Quando você falou que foi?”&lt;br /&gt;“Porra, foi a única vez que a gente foi pra Ilha Grande. Vocês precisam de ajuda pra lembrar, beleza, eu conto. A gente foi caminhar à noite, pegou aquela trilha que ia dar na prisão, estava uma lua linda, a gente bebeu, mas foi pouco, não tem a ver com isso, tem a ver com cabeça fraca. Tinha aquele maluco, que ficava na rua, doido mesmo, maltrapilho, falando pra pessoas que só ele via.”&lt;br /&gt;“Não lembro nada disso, vocês lembram?”&lt;br /&gt;“Eu lembro que a gente saiu à noite.”&lt;br /&gt;Eu não lembrava de nada, continuei quieto.&lt;br /&gt;“Daí você chamou o cara, quis tirar onda com ele.”&lt;br /&gt;“Você’tá louco.”&lt;br /&gt;“Não estou não, você que não quer lembrar, porque foi sua a idéia de ir lá, tirar onda com o cara. Daí a gente chamou ele pra subir no aqueduto, todos nós. Vocês dois na frente, nós dois atrás. O maluco dizia, meio gritando, ‘Eu sou o rei, o imperador desta ilha, nenhuma mulher manda por aqui, eu sou o rei, todos serão expulsos, menos a minha rainha’. Então ele caiu, não sei, não vi direito se tropeçou, se jogou, acho que não, despencou mesmo, caiu de cabeça.”&lt;br /&gt;Então, a gente ficou olhando pro Júlio, sem saber se ele falava sério, se a gente caía na gargalhada ou o quê. Mas ele permaneceu mergulhado em si mesmo, absorvido pela própria história. Cheguei até a cogitar que ele estivesse certo, que a gente tivesse apagado da memória aquilo tudo, perguntei o que houve depois.&lt;br /&gt;“Ele caiu de cabeça, quebrou o pescoço, morreu e a gente saiu correndo, deixou ele lá.”&lt;br /&gt;“E no dia seguinte?”&lt;br /&gt;“Fomos embora, pegamos o barco bem cedo, morrendo de medo que descobrissem.”&lt;br /&gt;Ficamos quietos. Júlio de cabeça baixa, olhando para o copo que segurava com as duas mãos, sem dizer mais nenhuma palavra.&lt;br /&gt;“Disso eu lembro, que a gente foi embora bem cedo.”&lt;br /&gt;“Fica quieto, isso não tem nada a ver com essa história maluca, que viagem.”&lt;br /&gt;Júlio levantou, caminhou até a porta do bar, ainda com o olhar perdido na trama dos pisos decorados. Deu uns passos em direção à esquina, sumiu de vista. Achei melhor a gente ficar ali, dar um tempo pra ele.&lt;br /&gt;“O que foi que aconteceu?”&lt;br /&gt;“Acho que eu sei, a mulher dele foi embora de casa, nem deu satisfação. Faz uns meses, acho que quase um ano.”&lt;br /&gt;“E ele não contou pra ninguém?”&lt;br /&gt;“Não, ele se fechou, eu soube porque tem um cara no trabalho que conhecia a mulher dele.”&lt;br /&gt;“E você não fez nada, nem ligou pra gente…”&lt;br /&gt;“É, não fiz nada, nem liguei, assim como nenhum de vocês me ligou quando minha irmã ficou um mês na UTI… Nem quando a filha dele nasceu. Nem quando você comprou o apartamento. E por aí vai.”&lt;br /&gt;“É, bela amizade a nossa.”&lt;br /&gt;“Que merda.”&lt;br /&gt;“Espera um pouco, tem uma chamada, da casa do Júlio.”&lt;br /&gt;Esperamos. Que idéia essa de reencontrar os amigos da adolescência. Quanta coisa já havia se passado, cada um cuidando apenas de sua própria vida. Eu me perguntava se alguma vez nossa amizade havia realmente feito falta para algum de nós, nesses anos todos.&lt;br /&gt;“Vocês não vão acreditar, era a Miriam.”&lt;br /&gt;“A mulher do Júlio!”&lt;br /&gt;“Ela recebeu meu recado sobre nosso encontro aqui, ligou pra dizer que faz oito meses que o Júlio foi embora de casa, sem dar satisfação, e que se a gente soubesse alguma coisa dele era pra avisá-la…”&lt;br /&gt;“Não é possível.”&lt;br /&gt;“Vou lá fora, ver se encontro ele.”&lt;br /&gt;Fomos todos. Vasculhamos todo o bairro, ninguém o havia visto, nem a pé, nem de carro. Sumiu como uma sombra em meio à espessa noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7933450792545074082-7755735324456417027?l=sandrokobol.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sandrokobol.blogspot.com/feeds/7755735324456417027/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://sandrokobol.blogspot.com/2009/04/o-imperador-da-ilha.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7933450792545074082/posts/default/7755735324456417027'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7933450792545074082/posts/default/7755735324456417027'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sandrokobol.blogspot.com/2009/04/o-imperador-da-ilha.html' title='O imperador da ilha'/><author><name>Sandro Kobol Fornazari</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/-xTzN-4bkzAc/TdRJ1ORxxmI/AAAAAAAAALo/4H4de0TD-Pc/s220/S6300830.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_lWBRbhU-zjo/SfZHKWjMSzI/AAAAAAAAAEM/zTWI8NKQAIo/s72-c/smallImage.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7933450792545074082.post-5953422700406245758</id><published>2009-04-07T11:54:00.002-03:00</published><updated>2009-04-10T15:42:37.236-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Ficção'/><title type='text'>Abismo</title><content type='html'>Impressionante este lugar!&lt;br /&gt;É, eu te falei.&lt;br /&gt;Esse vento é assustador, olha o tamanho daquelas pedras lá embaixo.&lt;br /&gt;E olha o tamanho das ondas que arrebentam nelas.&lt;br /&gt;Puta que pariu!&lt;br /&gt;…&lt;br /&gt;Quantos metros de altura tem esse costão, uns 50, 100?&lt;br /&gt;Não sei, acho que nunca ninguém mediu.&lt;br /&gt;E fica tão perto, né? Cuidado aí, não fica na beirada, querido.&lt;br /&gt;É, daqui dá pra ver o Morro da Cruz, lá no centro.&lt;br /&gt;É mesmo…&lt;br /&gt;Continuando a trilha vai dar na Lagoinha do Leste.&lt;br /&gt;Nossa, mas a gente já andou bastante…&lt;br /&gt;Bastante.&lt;br /&gt;Mas, então, meu amor, por que você queria tanto me trazer aqui?&lt;br /&gt;Pelo mistério.&lt;br /&gt;Como assim, vai dizer que tem bruxas aqui no morro, hahá…&lt;br /&gt;O mistério da vida, a gente só consegue perceber isso quando está muito próximo da morte…&lt;br /&gt;Quê? Não, você está enganado.&lt;br /&gt;Parece que tem uma força aqui, vinda das pedras lá em baixo, que atrai tudo, que nos puxa.&lt;br /&gt;Querido, cuidado, você está muito na beirada e está me assustando com esse papo.&lt;br /&gt;Não aguento mais isso…&lt;br /&gt;Quê?&lt;br /&gt;Você sempre foi muito prática, me convenceu que devia sair de casa, que era só sair de casa e…&lt;br /&gt;Meu amor, o que está havendo? Pensei que você estivesse feliz comigo.&lt;br /&gt;Não consigo conviver com isso, com o fato de ter abandonado meu filho e minha mulher.&lt;br /&gt;Como você pode dizer isso, você não suportava aquela mulher!&lt;br /&gt;Cala a boca, você não sabe de nada.&lt;br /&gt;Cala a boca? Porra, o que que está havendo?&lt;br /&gt;Vem cá.&lt;br /&gt;Não, me solta.&lt;br /&gt;Vem aqui perto, olha lá embaixo!&lt;br /&gt;Não, a gente vai cair…&lt;br /&gt;Não enquanto eu estiver te segurando.&lt;br /&gt;…&lt;br /&gt;Para de chorar. Eu queria que você entendesse como me sinto. Caminho todos os dias como se estivesse à beira de um abismo.&lt;br /&gt;Você está machucando meu braço…&lt;br /&gt;Não suporto essa culpa, meus pais nem olham nos meus olhos, meus amigos sumiram. E tudo por quê?&lt;br /&gt;Por amor, por nosso amor, você não acredita mais nele?&lt;br /&gt;Não posso.&lt;br /&gt;Não pode?&lt;br /&gt;Não consigo mais olhar pra você. Você é como os gatos.&lt;br /&gt;Quê?&lt;br /&gt;Sim, acha que pode tudo, que não há limites.&lt;br /&gt;Então você não gosta mais dos gatos?&lt;br /&gt;Minha mulher vai casar de novo.&lt;br /&gt;Eu sou sua mulher.&lt;br /&gt;Ela vai casar de novo e eles vão se mudar. Meu filho vai embora.&lt;br /&gt;Que droga…&lt;br /&gt;Por isso eu queria vir aqui, pra você entender como é, todo dia, ter vontade de se jogar num abismo. Veja aquelas ondas, elas vão nos libertar dessa dor.&lt;br /&gt;Me solta, desgraçado, eu não vou morrer por causa sua, seu covarde filho da puta.&lt;br /&gt;Está vendo como você só pensa em você, está certo, pode ir, vou ficar por aqui.&lt;br /&gt;Vou mesmo, olha a marca que ficou no meu braço, está doendo. Covarde. Tomara que se jogue, mas não, você não tem coragem.&lt;br /&gt;Então fique pra ver.&lt;br /&gt;Idiota. Você não vai mais me encontrar em casa quando voltar.&lt;br /&gt;Não vou voltar.&lt;br /&gt;Ótimo porque aí vou contar pro meu filho que o pai dele era um idiota que preferiu fugir das coisas.&lt;br /&gt;Filho?&lt;br /&gt;É, o meu filho que vai nascer, mas você nunca vai ver a cara dele. Você nunca vai saber se ele vai ter seus olhos, seus cabelos. Mas você vai saber a hora exata em que eu deixei de te amar…&lt;br /&gt;Espera, não vai embora. Não me deixa aqui sozinho. Não.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7933450792545074082-5953422700406245758?l=sandrokobol.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sandrokobol.blogspot.com/feeds/5953422700406245758/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://sandrokobol.blogspot.com/2009/04/abismo.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7933450792545074082/posts/default/5953422700406245758'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7933450792545074082/posts/default/5953422700406245758'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sandrokobol.blogspot.com/2009/04/abismo.html' title='Abismo'/><author><name>Sandro Kobol Fornazari</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image 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src='http://4.bp.blogspot.com/-xTzN-4bkzAc/TdRJ1ORxxmI/AAAAAAAAALo/4H4de0TD-Pc/s220/S6300830.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7933450792545074082.post-8010148802635944111</id><published>2009-03-27T20:18:00.003-03:00</published><updated>2009-03-28T15:54:36.693-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Cinema'/><title type='text'>A linha de fuga de Antoine</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/_lWBRbhU-zjo/Sc5yY6JY6II/AAAAAAAAADM/HLKbPblFZI8/s1600-h/400coups01.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer; width: 320px; height: 223px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_lWBRbhU-zjo/Sc5yY6JY6II/AAAAAAAAADM/HLKbPblFZI8/s320/400coups01.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5318313982222198914" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Reflexões sobre Os incompreendidos de François Truffaut (França, 1959).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;“?El ojo que ves no es ojo&lt;br /&gt;porque tú lo veas&lt;br /&gt;es ojo porque te ve?”&lt;br /&gt;Antonio Machado&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Os internos de um centro de observação de delinqüentes juvenis, na França, disputam uma partida de futebol. A câmera, em plongé, acompanha a ação. Um dos detidos é Antoine Doinel, de aproximadamente 13 anos. Os espectadores já o conhecem bem, acompanharam a série de acontecimentos que o levaram até ali, sabem que sua mãe tirou-lhe toda esperança de ser reintegrado à sua vida anterior, seu convívio familiar, seus amigos, sua escola. Segundo ela, Antoine deve ser encaminhado a um campo de trabalho, como parte de seu processo de “ressocialização”; além disso, ela lhe conta que seu pai já não se importa mais com ele. A bola sai pela lateral e Antoine a busca e a recoloca em jogo. Em seguida, corre quase em direção à câmera que se move focalizando à sua esquerda, abaixo, para um buraco na cerca, por onde o menino passa sem dificuldade. A câmera retorna num movimento rápido para o ponto de partida da corrida, donde vem o funcionário da instituição para persegui-lo; ele também se esgueira pelo buraco. Quando o funcionário passa, a câmera procura no fundo do plano Antoine em fuga, contornando um lago, inserindo-se numa paisagem campestre. O funcionário, no seu encalço, entra no mesmo quadro. Todo esse plano-seqüência se realiza com a câmera apenas movendo-se sobre seu eixo: diagonal para baixo para a passagem pela cerca, depois horizontal para enquadrar o menino em fuga, a quase 180º do ponto de partida.&lt;br /&gt;No plano seguinte, o menino despista seu perseguidor. A câmera move-se apenas o suficiente para mostrá-lo escondido enquanto o funcionário passa.&lt;br /&gt;Segue-se, então, o plano-seqüência da corrida de Antoine. A concepção é simples: num plano americano não muito rigoroso, movendo-se da esquerda para a direita do quadro, a câmera o acompanha em um travelling por mais de um minuto (78 segundos). Atrás dele, vemos uma paisagem rural de pequenos campos cercados, sem quaisquer pessoas à vista, vemos árvores e arbustos esparsos. O menino segue correndo, sem olhar para trás, sem saber o que o espera na frente, inteiramente sozinho vai cortando aquele caminho desolado. Seu rosto está praticamente impassível, não há traço algum de medo ou de coragem, de tristeza ou de alegria; o que sua marcha expõe é a determinação de seguir em frente, a despeito (ou apesar) de todas as instâncias disciplinadores que se atiram sobre sua vida.&lt;br /&gt;O que mais pode nos contar essa seqüência da fuga de Antoine que nos remeta para além do filme de estréia de Truffaut? O que há de novo nessa seqüência de Os incompreendidos que aponta para novos caminho para a cinematografia francesa e mundial?&lt;br /&gt;Dentro dos modestos objetivos deste ensaio, apenas pontuaremos algumas reflexões que nos permitirão situar o filme, de 1959, nos marcos de uma ruptura que uma nova geração de cineastas franceses provocaria com suas obras, ruptura que viria a ser conhecida como Nouvelle Vague.&lt;br /&gt;A Nouvelle Vague visa ao distanciamento em relação ao cinema de estúdio do pós-guerra francês, no qual havia pouca margem para o improviso e acentuada preocupação técnica na construção de imagens pseudo-realistas. Em Os incompreendidos, filma-se nas ruas de Paris, num reformatório, com a presença de não-atores e atores amadores, sobretudo as crianças, dando ao filme um tom de documentário.  O realismo não está mais nos marcos da representação realizada pela decupagem clássica a partir de enredos marcadamente literários, mas justamente naquilo que nega isso tudo, ou seja, em permitir o desenrolar da história diante da câmera, em cenas que se misturam ao cotidiano da cidade, que permitem ao espectador uma presença que não é mediada pela invisibilidade da câmera e da montagem, mas uma presença imediata que lhe permite acompanhar criticamente o desenrolar de um acontecimento, daí a prerrogativa dada aos planos-seqüência, notadamente no filme de estréia de Truffaut, de acordo com os exemplos descritos acima. Colocamo-nos ao lado de Antoine em sua corrida, não porque a câmera nos provoca a ilusão da presença na invisibilidade, mas porque ela nos provoca a apreender o sentido de sua marcha, a refletir sobre a estupidez das razões de seu internamento e daquilo que provoca sua fuga. Ainda, essa co-presença nos desafia a pensar como alargar os horizontes de possibilidades dessa vida que, ao contrário, as instituições pretendem cercear através do disciplinamento. Tudo está contra Antoine, tudo indica a ausência de saídas, mas a potência de sua marcha, a determinação de seu olhar sempre voltado para a frente nos dizem o contrário. Não estamos diante de uma identificação barata com um personagem cuidadosamente construído pela máquina de produzir ficções do cinema tradicional, mas de um ser que, ainda que possa ser igualmente ficcional, possui a universalidade em seu rosto humano. Mais que seu rosto, o que a câmera mostra é um corpo que age, que quebra com seu ritmo vigoroso todas as grades e cercas que se interpunham entre ele e o mundo.&lt;br /&gt;É certo que esse recurso ao plano-seqüência não será uma tônica da Nouvelle Vague. Outros recursos serão mais comuns que esse, como a descontinuidade da narrativa, o uso freqüente de flashbacks, a explicitação da figura do narrador, entre outros. Justamente nisso reside o interesse dessa opção de Truffaut nessa obra emblemática. O efeito que se busca é praticamente o mesmo, provocar o espectador a reaprender o cinema, explicitar algo que nunca deveria ter deixado de ser óbvio, isto é, que a história não se conta a si própria, mas é fruto de um trabalho criativo de um autor e de sua equipe, munido de um dado aparato técnico, de uma linguagem própria constituída de blocos de imagem-movimento e imagem-tempo.&lt;br /&gt;Talvez se possa afirmar que Os incompreendidos esteja sob a influência de André Bazin, que proibia a montagem quando o sentido da ação dependesse da contigüidade física dos seus elementos constituintes, isto é, da integridade de um acontecimento.  Afinal, o que seria do plano da marcha de Antoine se a montagem alternasse recuos e avanços, diferentes ângulos, closes, etc.? Seria possível abarcar o sentido desse acontecimento ou seríamos apenas conduzidos pela câmera a uma emoção qualquer, que apenas aguarda uma consumação, deixando-nos a falsa saciedade do entretenimento?&lt;br /&gt;Retomemos o filme. A fuga de Antoine o leva à costa. A câmera descortina o estuário, a escadaria por onde desce o menino, a areia da praia. Ele continua correndo. Olha para um lado, depois para o outro. A praia está vazia. A câmera o acompanha mais uma vez num longo travelling. Embora continue correndo, seu corpo demonstra uma relutância, uma apreensão diante do encontro que se aproxima. Nunca havia visto o mar. Sua marcha se detém quando seus pés pisam na água. Antoine caminha então em direção à câmera, procura por ela e seus olhos nos surpreendem a observá-lo. Colocamo-nos, assim, diretamente na história da vida desse menino, não apenas um indivíduo, mas uma singularidade porque carrega em si a universalidade de seu acontecimento, isto é, de sua resistência, de sua sinceridade, de sua busca, de sua fuga. Como sugerem os versos de Antonio Machado, em epígrafe, os olhos que vemos não são olhos porque os vemos, mas porque podem ver e, ainda mais, porque podem nos devolver o olhar. Logo, se também nosso olhar pode ser visto, surpreendido assim por Antoine, é porque realmente reaprendemos algo, tornamo-nos novamente capazes de ver.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7933450792545074082-8010148802635944111?l=sandrokobol.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sandrokobol.blogspot.com/feeds/8010148802635944111/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://sandrokobol.blogspot.com/2009/03/linha-de-fuga-de-antoine.html#comment-form' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7933450792545074082/posts/default/8010148802635944111'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7933450792545074082/posts/default/8010148802635944111'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sandrokobol.blogspot.com/2009/03/linha-de-fuga-de-antoine.html' title='A linha de fuga de Antoine'/><author><name>Sandro Kobol Fornazari</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/-xTzN-4bkzAc/TdRJ1ORxxmI/AAAAAAAAALo/4H4de0TD-Pc/s220/S6300830.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_lWBRbhU-zjo/Sc5yY6JY6II/AAAAAAAAADM/HLKbPblFZI8/s72-c/400coups01.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7933450792545074082.post-2548486272846846517</id><published>2009-03-04T15:30:00.005-03:00</published><updated>2009-09-16T09:28:42.833-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Poema'/><title type='text'>Últimos dias de desterro</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/_lWBRbhU-zjo/Sc50PuUfoLI/AAAAAAAAADc/NMrl_qgnyoY/s1600-h/S6301653.JPG"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; 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 &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Sim, existe essa coisa inimaginável:&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;máquina de produzir aflições&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;sob a pele&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;reproduzindo em nós os desejos alheios.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Ela produz&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;reproduz&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;programa&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;até assume o controle.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Mas veja, agora, como ela se cala:&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;é que ela não sabe nadar nas águas douradas da lagoa&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;quando no mundo os ruídos são mais fortes&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;é que ela nada pode contra o encontro dos ventos, das rochas, das águas&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;correntes que nos atravessam de fora.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;A máquina não é o império.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Veja como, agora, ela se cala:&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;nada pode contra as alegrias nascidas dos bons encontros&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;que trocam palavras, abraços, confiança&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;nada pode, essa máquina, contra os amores que se vivem intensamente e apesar de.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Movimentos que enlaçam, conspiram, atravessam.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Nem fora, nem dentro&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;mas por toda parte&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;sempre algo se produz&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;que as aflições se calem é a conquista dos domadores de monstros&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;seres sem carne nem osso&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;são feitos de correntes e fluxos&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;que escapam atravessam&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;que não se podem conduzir&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;são feitos de águas e ventos e rochas&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;de peles, de cheiros, de fluxos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;São a vida em estado desfixo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7933450792545074082-2548486272846846517?l=sandrokobol.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sandrokobol.blogspot.com/feeds/2548486272846846517/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://sandrokobol.blogspot.com/2009/03/ultimos-dias-de-desterro.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7933450792545074082/posts/default/2548486272846846517'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7933450792545074082/posts/default/2548486272846846517'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sandrokobol.blogspot.com/2009/03/ultimos-dias-de-desterro.html' title='Últimos dias de desterro'/><author><name>Sandro Kobol Fornazari</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/-xTzN-4bkzAc/TdRJ1ORxxmI/AAAAAAAAALo/4H4de0TD-Pc/s220/S6300830.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_lWBRbhU-zjo/Sc50PuUfoLI/AAAAAAAAADc/NMrl_qgnyoY/s72-c/S6301653.JPG' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7933450792545074082.post-5559639760547432163</id><published>2009-01-09T10:59:00.004-02:00</published><updated>2009-03-30T11:49:57.101-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Cinema'/><title type='text'>O mundo das coisas</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/_lWBRbhU-zjo/SdDb954RZjI/AAAAAAAAADk/KmjEp0FDwQo/s1600-h/ht+cheiro+do+ralo.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 0pt 10px 10px; float: right; cursor: pointer; width: 320px; height: 240px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_lWBRbhU-zjo/SdDb954RZjI/AAAAAAAAADk/KmjEp0FDwQo/s320/ht+cheiro+do+ralo.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5318993016479901234" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Análise da adaptação do livro O cheiro do ralo de Lourenço Mutarelli (Ed. Devir, 2. ed., 2007) para o filme homônimo de Heitor Dhalia (Brasil, 2007). Roteiristas: Marçal Aquino e Heitor Dhalia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há diversas características no enredo de O cheiro do ralo que fazem dele um drama marcadamente contemporâneo, que permitem uma reflexão acurada sobre as condições atuais de construção da subjetividade, em que as relações humanas, inclusive afetivas, são mercantilizadas, a televisão se imiscui na mente das pessoas, controlando muitas de suas pulsões, em que a violência aparece como válvula de escape para a solidão e o tédio. Com exceção da onipresença da televisão e do discurso publicitário, que é pouco explorada no filme, todos os outros aspectos constituem o cerne da história (tanto no livro, quanto no filme) de um pequeno empresário paulistano que, consciente de que nunca gostou de ninguém, deseja possuir a bunda, isto é, a bunda da garçonete da lanchonete que freqüenta. Não se trata meramente de um impulso sexual, mas de possuí-la como um objeto ou de consumi-la como uma imagem ou uma mercadoria qualquer, de modo que só poderia atingir seu intento se pudesse pagar para ver a bunda, reduzindo desse modo a garçonete a uma coisa entre as outras coisas usadas, aquelas que compra em sua loja para revender com lucro.&lt;br /&gt;A complicação da história está no fato de que a bunda não é acanhada, coitadinha, dificultando o objetivo do protagonista. Dificultando apenas, porque no final das contas a moça fica desempregada e acaba por aceitar o dinheiro para mostrar-se. É assim que o fetichismo, a coisificação das relações humanas é levada ao paroxismo, pois tão logo pode possuir a bunda, o protagonista já não se interessa mais por ela, porque ela vale enquanto busca, não como objeto; enquanto desejo que tão logo é saciado pela posse do outro, deixa apenas o vazio.&lt;br /&gt;O livro de Mutarelli conta essa história através do discurso indireto livre, em primeira pessoa, não apenas para registrar os monólogos do protagonista e os diálogos entre personagens, mas também e indistintamente os pensamentos, as lembranças, as imagens e falas que constrói ou que reproduz a partir da programação da TV, bem como a descrição das ações. Deixa alguns indícios de que seus sonhos e delírios se misturam à realidade, de que estava dormindo quando alguns fatos se sucederam ou que estava sob efeito de antidepressivo. Tudo isso aparece num fluxo de linguagem com um ritmo alucinante. Os capítulos têm tamanhos bastante distintos e estão subdivididos por traços, inúmeros traços que funcionam como cortes desse fluxo, que remetem o leitor de um lugar a outro, de uma ação a outra, com elipses temporais; servem também como cortes no fluxo dos pensamentos. No entanto, esses cortes não dependem dos traços, podem dar-se de uma frase a outra, em que diferentes idéias, descrições de ações, slogans, entre outras coisas, vão alternando-se no transcorrer da narrativa escrita.&lt;br /&gt;O filme de Dhalia, no geral, desacelera o livro. Isso é curioso porque normalmente é o contrário o que ocorre, ou seja, são os filmes que dinamizam os romances. Esse processo de dinamização pode acorrer de diversas formas, por exemplo, através de elipses temporais ou da eliminação de acontecimentos secundários ou de personagens, amplificando, por outro lado, passagens que possam dar ensejo à criatividade do autor em exprimir-se através de blocos de imagens. A duração da narrativa, embora imprecisa em ambos, não sofre alterações, o que se altera é seu ritmo, mais intenso no livro. E mesmo quando o filme suprime, adiciona ou dá relevo a algum personagem não há indicação que se busque a dinamização da narrativa. Vejamos dois exemplos.&lt;br /&gt;Primeiro, toda a passagem do livro em que o protagonista se apaixona pela mulher casada é suprimida no filme. Trata-se de um acontecimento importante no livro, que explora outras possibilidades da narrativa e do caráter do personagem e que se desenvolve no longuíssimo quinto capítulo do livro, o mais longo de todos. O protagonista se encanta pela mulher casada, que aparece como cliente, para vender-lhe um relógio. Ela aparentemente também se encanta por ele. Ela precisa de dinheiro, ele a ajuda, reconfortando-se com sua presença, embora fique em dúvida se está apaixonado ou se é efeito do novo remédio (tudo indica que é um antidepressivo) que está tomando. Apesar disso, o mundo dele ganha um novo encantamento, ele liberta-se por um tempo do cheiro do ralo e da presença obsedante do olho de seu pai. Vivem um jogo em que o sexo e o dinheiro que ele lhe dá para ajudá-la se complementam. No fim das contas, a desconfiança de que ela apenas está se aproveitando dele se sobrepõe a sua afeição e ele acaba por obrigá-la a cheirar o ralo, expulsando-a sem saber ao certo as intenções dela. Toda essa trama é retirada do filme, embora estivesse presente no roteiro. Aparece apenas uma cena descontextualizada em que uma mulher tira a roupa e faz sexo oral com o protagonista que lhe dá todo o dinheiro que tem nas gavetas. O que poderia ter levado a essa supressão não está ao nosso alcance saber ao certo. Porém, podemos afirmar que não há motivos para acreditar que essa passagem traria dificuldades para a dinâmica da narrativa, já marcada pela sucessão de um grande número de personagens que chegam à loja. Talvez uma simplificação da personalidade do protagonista, tornando-a mais linear, descomplicando-a. O filme poderia tornar-se mais interessante com a presença dessa trama.&lt;br /&gt;O segundo exemplo é o destaque que o segurança ganha no filme, que no livro e no roteiro aparecia muito pouco. O segurança é interpretado, curiosamente, por Lourenço Mutarelli, autor do livro. Ele interage com o protagonista e com os clientes, mas o que sua presença indica sem sombra de dúvida é a construção de um caráter mais cômico ao filme, indicado já em seu figurino exagerado, seu jeito de paspalho, seu modo de falar ao mesmo tempo presunçoso e vulgar.&lt;br /&gt;O filme possui um ritmo mais leve, pausado, que ameniza a personalidade atormentada do protagonista, que até ganha um nome, que não tinha no livro: Lourenço. Além disso, existe muito humor no filme, um humor ácido às vezes, mas bem dosado. A presença de Selton Mello como Lourenço, ator conhecido por muitos trabalhos humorísticos na TV, não compromete o tom geral do filme, salvo em algumas passagens em que seu estilo muito próprio de atuação transparece, falando mais alto do que o personagem que interpreta, como na cena em que se recusa a comprar dinheiro antigo de um cliente.&lt;br /&gt;Esses elementos apontados acima (simplificação, humor, leveza, a presença de uma estrela da TV) talvez possam ser interpretados como uma preocupação em alavancar uma carreira comercial para o filme, o que não costuma acontecer com o atual cinema brasileiro financiado pelas leis de incentivo, cuja captação prévia de recursos desocupa a produção da necessidade da difusão do filme, até mesmo muitas vezes do desejo que esse filme seja visto pelo grande público, o que necessitaria de uma briga política para ampliar o espaço das produções nacionais no circuito de distribuição dominado pelos interesses da indústria do cinema estadunidense.&lt;br /&gt;Contrabalançando isso tudo, o filme não faz concessões ao que é o cerne da história. A mercantilização das relações humanas fica evidenciada pelas diversas cenas em que os clientes afluem à loja para conseguir dinheiro com coisas usadas, muitas delas de valor inestimável outras sem valor algum, como o prato que a viciada lhe oferece. Essa situação dá poder a Lourenço sobre todas essas pessoas, ele determina valores de forma aleatória e deseja e acaba por fazer o mesmo com a bunda da moça da lanchonete. No fim das contas, só resta-lhe o vazio da ausência do desejo, o cansaço de uma vida desprovida de afeto. É isso o que o ralo representa na história. É ao ralo que Lorenço se dirige quando se sente vazio, recusa-se a consertá-lo de fato, inclina-se sobre ele para aspirar seu cheiro, rasteja moribundo em sua direção. Talvez a cena mais potente do filme seja uma que até pode passar despercebida, o travelling pela loja fechada, à noite, que descortina a luz vinda do ralo, diabólica. É no ralo que Lourenço busca seu reflexo, mas o ralo é o cu do mundo, o inferno, a escuridão, a ausência do pai. Quando ele olha para o ralo, vê apenas a escuridão, mas a escuridão responde ao seu olhar, ela o vê com o olho do inferno, isto é, com o olho do pai que ele nunca conheceu mas que tenta construir com um olho de vidro e uma perna de pau, como na história infantil. Lourenço se vê diante de sua incapacidade de tornar-se adulto, de amar, de respeitar aos outros e a si mesmo. De tanto acumular coisas, de tratar as pessoas como coisas, Lourenço reifica sua própria vida, alimenta seu espírito com seu próprio excremento, o cheiro do ralo.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7933450792545074082-5559639760547432163?l=sandrokobol.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sandrokobol.blogspot.com/feeds/5559639760547432163/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://sandrokobol.blogspot.com/2009/01/o-mundo-das-coisas.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7933450792545074082/posts/default/5559639760547432163'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7933450792545074082/posts/default/5559639760547432163'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sandrokobol.blogspot.com/2009/01/o-mundo-das-coisas.html' title='O mundo das coisas'/><author><name>Sandro Kobol Fornazari</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/-xTzN-4bkzAc/TdRJ1ORxxmI/AAAAAAAAALo/4H4de0TD-Pc/s220/S6300830.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_lWBRbhU-zjo/SdDb954RZjI/AAAAAAAAADk/KmjEp0FDwQo/s72-c/ht+cheiro+do+ralo.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7933450792545074082.post-2146508302641899607</id><published>2009-01-09T10:51:00.004-02:00</published><updated>2009-03-30T11:52:12.127-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Cinema'/><title type='text'>Sobrevida</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/_lWBRbhU-zjo/SdDclFYjl0I/AAAAAAAAADs/k4XjBx2Xh5I/s1600-h/L_Intrus.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer; width: 320px; height: 180px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_lWBRbhU-zjo/SdDclFYjl0I/AAAAAAAAADs/k4XjBx2Xh5I/s320/L_Intrus.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5318993689582999362" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Análise fotográfica do filme L’intrus da diretora Claire Denis (França, 2004).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O protagonista de L’intrus é Louis Trebor, com quem encontramos em três momentos distintos de sua vida. No primeiro, ele vive numa floresta montanhosa na zona de fronteira entre a França e a Suiça, na companhia de dois cães, espreitado por pessoas que desconhecemos, mas que parecem estar atrás de um acerto de contas com ele. Louis corta a garganta de um de seus perseguidores. Ele começa a sentir seu coração fraquejar. Com dinheiro que guarda num banco suiço, compra um novo coração para receber de transplante. Atormenta-se vislumbrando que o coração pode ser retirado de um corpo assassinado. No segundo momento, logo após o transplante, ele se encontra no oriente, onde faz negócios com sul-coreanos e afirma que o fez pensando no filho. Louis nunca teve contato com esse filho, já adulto, fruto de um relacionamento com uma taitiana. No terceiro momento, alguns anos depois do transplante, ele vai ao Taiti, em busca do filho, que o ignora. Lá, numa ilha remota, espera que seu filho apareça, enquanto aguarda sua morte em decorrência de efeitos do transplante.&lt;br /&gt;Esse enredo, cuja síntese apresentamos, flerta decididamente com a inverosimilhança. Além disso, apresenta como protagonista um personagem que somente com muita boa vontade pode despertar a simpatia do espectador. Ele é um criminoso, que se esconde de seu passado, que não demonstra afeto pelo filho, nora e netos que vivem próximos à fronteira, abandona os cães na floresta, não hesita em usar seu dinheiro para comprar um novo coração.&lt;br /&gt;Apesar disso, o filme de Claire Denis tem uma potência impressionante. Na seqüência do texto, tentaremos apresentar e discutir alguns aspectos fotográficos do filme que fazem com que a força expressiva de suas imagens comunique muito mais que uma narrativa qualquer e dote esse enredo esquisito de uma interessante simbologia.&lt;br /&gt;A câmera de Denis e Agnés Godard (diretora de fotografia) não se quer transparente, não está registrando os fatos de uma história que se conta a si mesma. Ao contrário, existe sempre uma intencionalidade. O posicionamento da câmera, seus movimentos leves, mas não mecânicos, indicam a presença de um olhar que se reposiciona no quadro, que se aproxima ou se afasta, que explora os espaços e, principalmente, as pessoas. O mais freqüente é que a câmera nos transmita sensações. As sensações mais comuns provêm de uma aproximação das superfícies, sejam elas a pele, o cabelo, as roupas, os pêlos dos animais, sejam as paisagens naturais, que formam espécies de blocos: o mar, os pinheiros, as folhas, as palmeiras. Quando a imagem mostra as dificuldades de Louis em realizar esforços físicos, a empatia não é provocada pela identificação com o personagem, mas pela universalidade de seu corpo, a humanidade que a câmera explora de perto ao dar relevo à sua respiração ofegante, ao seu tatear na terra, que chega ao espectador através de sensações.&lt;br /&gt;Entre os planos não existe um encadeamento mágico, que cria a ilusão de uma narrativa inquebrantável, de fatos que se sucedem por conta própria diante de nossa crença em sua verdade. Ao contrário, existem lacunas que deixam ao espectador um papel ativo de participação na história, de preenchimento subjetivo dessas lacunas. Personagens aparecem na história para tão logo desaparecerem, deixando-nos a imaginar os contornos de sua vida, como a namorada suiça de Louis. Além disso, há interpolações de cenas que não fazem parte dos fatos, parecem sonhos, talvez devaneios, medos, a exploração do inconsciente que não é necessariamente subjetivo, tampouco de um personagem ou do protagonista. É o caso das cenas que se seguem à negociação de compra do novo coração (ou até mesmo essa cena poderia estar incluída). Caçadores largam um corpo ensangüentado na neve, depois aparece o coração, também sobre a neve, num contraste impressionante de cores, até os próprios cães de Louis aparecerem para devorá-lo. Ainda, a cena de Louis sendo arrastado pela neve com as pernas amarradas a dois cavalos a todo galope, simbolizando a culpa e o castigo advindos da infame negociação, a que mesmo um assassino pode não sair incólume, mas pode ser que essa culpa seja nossa e não dele, pode ser que seja nosso desejo de punição para o ato desumano que presenciamos de contrabandear um órgão e que o filme exprime em imagens ali, ante nossos olhos incrédulos. Existe uma carga dramática nessas cenas, notadamente a dos cavalos, que se expressa pela velocidade com que a câmera se desloca, às vezes treme, tentando acompanhar os cavalos, que entram e saem do quadro, como se seu galope fosse de uma potência inapreensível para a câmera; há muitos cortes, planos detalhes, closes dos cavalos, até o enquadramento final da cena, com os dois cavaleiros subindo uma colina coberta de neve até o horizonte cortado pela luz do sol poente.&lt;br /&gt;Vemos, então, que o filme se compõe de aberturas que fornecem ao espectador um campo de criação imagética e até mesmo de ilusão sensorial. Recriamos aspectos da história que o filme não conta, mas, mais que isso, refletimos sobre os elementos simbólicos e somos apanhados numa estrutura narrativa que nos provoca sensações e paixões múltiplas.&lt;br /&gt;Uma das possibilidades de discutir o filme simbolicamente é a reflexão sobre o anseio humano de uma sobrevida, de viver para além do tempo em que seu próprio corpo foi programado, quando, no caso, o coração simplesmente vai deixando de funcionar. De que meios podemos lançar mão para atingir esse intento? Viver com um novo coração traz quais considerações a respeito da subjetividade do transplantado, que precisa inibir seu sistema imunológico para que seu corpo aceite esse órgão novo, causando com isso uma série de efeitos indesejáveis, de novas doenças oportunistas. O filme infelizmente não explora em profundidade as reflexões do livro de Jean Luc Nancy, homônimo do filme, apenas o utiliza como argumento. No filme, a necessidade do transplante impulsiona um novo caminho a ser seguido por Louis, no Pacífico Sul, onde ele desenrola sua decadência, um caminho para a morte. A câmera já se distancia dele, ele não inspira mais emoções, seu corpo já se mistura à paisagem, já não se singulariza. Apenas seu velho amigo parace compadecer-se dele, mobiliza sua comunidade para encontrar-lhe um filho. A busca por seu filho bastardo talvez não passe de um anseio por reencontrar sua juventude, uma busca vaidosa por uma vida, por um vigor que lhe escapa.&lt;br /&gt;Uma última palavra não poderia faltar sobre a música original, que vai pontuando o filme, fazendo com que as imagens que ela acompanha transbordem da tela. Assim vão os cães correndo atrás do carro, deslizando pela superfície do mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7933450792545074082-2146508302641899607?l=sandrokobol.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sandrokobol.blogspot.com/feeds/2146508302641899607/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://sandrokobol.blogspot.com/2009/01/sobrevida.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7933450792545074082/posts/default/2146508302641899607'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7933450792545074082/posts/default/2146508302641899607'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sandrokobol.blogspot.com/2009/01/sobrevida.html' title='Sobrevida'/><author><name>Sandro Kobol Fornazari</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/-xTzN-4bkzAc/TdRJ1ORxxmI/AAAAAAAAALo/4H4de0TD-Pc/s220/S6300830.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_lWBRbhU-zjo/SdDclFYjl0I/AAAAAAAAADs/k4XjBx2Xh5I/s72-c/L_Intrus.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7933450792545074082.post-4484508767310803274</id><published>2008-10-28T18:18:00.001-02:00</published><updated>2008-10-28T18:22:51.124-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Ficção'/><title type='text'>Ininterrupto</title><content type='html'>&lt;blockquote&gt;&lt;p align="right"&gt;&lt;em&gt;Para Daniel Fontana&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Não tem nada que presta nesse rádio, e o cd quebrado já faz anos, por que eu não compro outro rádio, porque aí não ía ficar ouvindo essa porra de cbn esporte clube, esse Juca Kfouri que se acha, arg, outro daqueles trocadilhos com o nome do jogador. Pelo menos nesse horário não pego trânsito, é só tocar adiante, tentar não pensar em nada… malditos, desgraçados, por que não me deixam trabalhar em paz, não tenho culpa se são incompetentes: invejosos, porra, só quero trabalhar, ir embora de lá e esquecer. Daqui a onze meses, uma semana e dois dias tem outras férias, dessa vez vou viajar, não vou ficar só nos planos… Preciso comprar coisas, fazer alguma coisa com aquele dinheiro no banco, o dinheiro só fica lá, empoeirando, todo mês mais um pouco, pra quê? Devia dar pra alguém, pra quem? Caralho, será que só eu respeito a velocidade, todo mundo com pressa, voando, será que apostam corridas imaginárias, não sei por que não funcionam em mim as estratégias de marketing, não sinto necessidade de consumir, o que seria da economia se todos fossem como eu, quantos desejos já tentaram implementar em mim, em vão, a coisa que mais gosto de fazer não faço porque tenho medo, andar de bicicleta, não dá, os motoristas nem vêem as bicicletas, e se precisar jogar em cima jogam, e eu me sinto tão livre de bicicleta que me acho indestrutível. É, bicicleta não dá. Filho da puta, vai fechar a puta que pariu, puta, puta, por que tanta puta quando se vai xingar? Merda, esqueci de lavar a roupa, esqueci também de comprar pão, amanhã vou trabalhar com fome de novo, que dia é hoje, terça, não tem nada na tv, como ia ser se eu chegasse em casa e não ligasse a tv, silêncio, silêncio, que nada, ia ter minha cabeça falando como agora, sem dar trégua, me lembrando do que não interessa, me fazendo esquecer o que importa, eu devia arrumar um gato, não eles são silenciosos também, mas às vezes pode ser um gato carinhoso, não, não, devia ter um filho, mas aí eu ía precisar casar de novo, não consigo mais dividir minha vida com ninguém, ninguém ia querer também, essa história de que todo mundo tem alguém destinado, que balela, há três anos ninguém se interessa por mim, fazem muito bem, porque eu também não me interesso por ninguém, que porra, queria parar de pensar um pouco, vou parar pra comprar pão, ah, não vou não, o pessoal dessa padaria é muito mal educado, já chega no serviço, cara feia, e eu que tento ser simpático com todo mundo, não tenho culpa de que faço as coisas bem feitas, inveja é foda. Oitenta por hora, se eu puxasse o volante pra direita agora, não ia precisar trabalhar de barriga vazia amanhã, o silêncio seria outro, sem consciência, puro vazio, de uma vez por todas, eu devia ter comprado outro rádio com cd, mp3, devia, não quero ir pra casa, encontrar tudo do jeito que deixei de manhã, ter de ligar a tv… Noventa por hora, chega, é hora de meus músculos…&lt;br /&gt;*************************************************************************************&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;*************************************************************************************&lt;br /&gt;Puta merda, que estronto, faíscas, o carro deu várias voltas e eu estou ainda aqui, preso, meu pescoço, estou de ponta cabeça, merda, eu não vou apagar, não vou sentir dor? Cadê a porra do silêncio, não agüento mais essa cabeça, essa voz que eu sou dentro de mim, que diz eu, que insiste...&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7933450792545074082-4484508767310803274?l=sandrokobol.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sandrokobol.blogspot.com/feeds/4484508767310803274/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://sandrokobol.blogspot.com/2008/10/ininterrupto.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7933450792545074082/posts/default/4484508767310803274'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7933450792545074082/posts/default/4484508767310803274'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sandrokobol.blogspot.com/2008/10/ininterrupto.html' title='Ininterrupto'/><author><name>Sandro Kobol Fornazari</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/-xTzN-4bkzAc/TdRJ1ORxxmI/AAAAAAAAALo/4H4de0TD-Pc/s220/S6300830.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7933450792545074082.post-2700914725046940050</id><published>2008-10-28T17:51:00.003-02:00</published><updated>2008-10-31T19:49:10.996-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Vídeo'/><title type='text'>A morte de Immanuel Kant (vídeo-poema)</title><content type='html'>&lt;object width="320" height="266" class="BLOG_video_class" id="BLOG_video-bb8b876f63126c44" classid="clsid:D27CDB6E-AE6D-11cf-96B8-444553540000" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"&gt;&lt;param name="movie" 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meio jipe, 4X4, importadão!&lt;br /&gt;‘Cê tá brincando, né?&lt;br /&gt;Há, mas um BMW dava pra comprar, não dava?&lt;br /&gt;Meu, dava pra comprar uns vinte BMWs, mas por que eu ia precisar disso, pra viver com medo de assalto, de seqüestro?&lt;br /&gt;Que é isso! Quando a gente era criança você vivia sonhando com esses carrões, você até tinha uma Ferrari de ferro…&lt;br /&gt;Tinha, mas a gente era criança, esqueceu? Depois, não lembra do João Paulo?&lt;br /&gt;João Paulo, o papa?&lt;br /&gt;Que papa, o parceiro do Daniel, ele tinha um carrão desses, não lembro qual, correu tanto que acabou colado no asfalto, lá em Minas.&lt;br /&gt;Colado no asfalto, hahá.&lt;br /&gt;Você ainda ri, meu, o que que está acontecendo contigo?&lt;br /&gt;Um apartamento novo, uns móveis bem combinando, uma casa na praia, é isso que você está precisando, não é não?&lt;br /&gt;Na verdade não, não preciso de nada disso, meus sogros moram em Peruíbe, você esqueceu?&lt;br /&gt;Peruíbe, hahá, não sabe mesmo o que é curtir a vida, meu negócio é Ilhabela, Barra…&lt;br /&gt;Não sei curtir a vida, mas é você que vive reclamando de seu emprego, de suas namoradas, de seu ap…&lt;br /&gt;…&lt;br /&gt;Então que que ‘cê vai fazer com esse dinheiro todo, caralho?&lt;br /&gt;Sei lá, vou dar uma ajuda pra minha irmã e pra minha mãe, mas eu tenho de pensar mesmo é na minha filha.&lt;br /&gt;Claro, sua filha.&lt;br /&gt;E vou fazer o seguinte, também, vou te dar um presente…&lt;br /&gt;Qu’é isso, não precisa não.&lt;br /&gt;Vou te dar uma grana, daí você compra um carro ou um apartamento, o que quiser.&lt;br /&gt;Er.&lt;br /&gt;Em nome de nossa amizade antiga, eu sempre pude contar contigo, quando meu pai morreu…&lt;br /&gt;Qu’é isso…&lt;br /&gt;Tá certo?&lt;br /&gt;Mas uma grana quanto?&lt;br /&gt;Sei lá, cinqüenta mil.&lt;br /&gt;Cinqüenta mil?&lt;br /&gt;Cinqüenta mil.&lt;br /&gt;Por que você não enfia esses cinqüenta mil no cu?&lt;br /&gt;Quê?&lt;br /&gt;Vai se foder, meu, você ganhou milhões com esse lixo de música.&lt;br /&gt;Hã?&lt;br /&gt;Só por causa dessa cara bonitinha, você até esquece que fui eu que te ensinei a tocar violão, não lembra não?&lt;br /&gt;Não foi bem assim…&lt;br /&gt;Não foi bem assim, ‘cê tá maluco?&lt;br /&gt;Então você acha minha música um lixo, você é muito falso, que merda, você já terminou de comer? Porque acho que já está na hora de você ir embora.&lt;br /&gt;Ir embora o caralho, só vou embora quando você arrumar quinhentos mil em dinheiro.&lt;br /&gt;Quê?&lt;br /&gt;Em dólar.&lt;br /&gt;‘Cê‘tá louco, de onde tirou essa idéia?&lt;br /&gt;Tirei do fato de que sua filha está com uns amigos meus, na mira da faca, entendeu?&lt;br /&gt;Minha filha, mas ela saiu pra ir…&lt;br /&gt;Pra ir no shopping, pegamos ela, acabei de receber a confirmação, agora vamos negociar.&lt;br /&gt;Cara, nossa amizade…&lt;br /&gt;Enrola e enfia junto dos cinqüenta mil.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7933450792545074082-6250224140863674266?l=sandrokobol.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sandrokobol.blogspot.com/feeds/6250224140863674266/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://sandrokobol.blogspot.com/2008/10/dilogo.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7933450792545074082/posts/default/6250224140863674266'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7933450792545074082/posts/default/6250224140863674266'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sandrokobol.blogspot.com/2008/10/dilogo.html' title='Diálogo'/><author><name>Sandro Kobol Fornazari</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/-xTzN-4bkzAc/TdRJ1ORxxmI/AAAAAAAAALo/4H4de0TD-Pc/s220/S6300830.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7933450792545074082.post-5956450307677071401</id><published>2008-09-11T14:09:00.009-03:00</published><updated>2008-09-24T12:07:49.148-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Ficção'/><title type='text'>A prova de Mátemática</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal" style="text-indent: 35.4pt; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;  &lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;i style=""&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:'trebuchet ms';"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;i style=""&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:'trebuchet ms';"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;Dedicado a Adriana Bernardino&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;" class="MsoBodyText"&gt;&lt;i style=""&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:'trebuchet ms';"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;  &lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;" class="MsoBodyTextIndent"&gt;  &lt;/p&gt;    &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;/p&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: right; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:'trebuchet ms';"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;meta equiv="Content-Type" content="text/html; charset=utf-8"&gt;&lt;meta name="ProgId" content="Word.Document"&gt;&lt;meta name="Generator" content="Microsoft Word 11"&gt;&lt;meta name="Originator" content="Microsoft Word 11"&gt;&lt;link rel="File-List" href="file:///C:%5CDOCUME%7E1%5CAluno%5CCONFIG%7E1%5CTemp%5Cmsohtml1%5C01%5Cclip_filelist.xml"&gt;&lt;!--[if gte mso 9]&gt;&lt;xml&gt;  &lt;w:worddocument&gt; 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A reação era diferente mas no fundo sempre a mesma: “Se não fizer, vai ficar sem nota.” Ele bem sabia disso, claro, tinha refletido bastante antes de fazer os comunicados. “Mas a escola não pode me reprovar se eu souber toda a matéria. E como os professores vão saber disso? Simples, acreditando na minha palavra, a de que eu sei a matéria com sobras.” De fato, Luiz sabia de toda a matéria, com sobras, e a maioria dos professores o conhecia do ano anterior. Como de nada adiantou insistirem com o aluno e com sua teima em não fazer as provas, os professores levaram o caso à coordenadora pedagógica, que prontamente chamou Luiz em sua improvisada sala.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-size: 12pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;“Não adianta, não vou mais fazer provas porque elas não servem para nada.” De início, a pedagoga tentou mostrar compreensão e simpatia, fez um levantamento das notas de Luiz e viu que eram muito boas, tirando dessa evidência uma sábia conclusão: “Servem sim, servem para você tirar as boas notas de sempre e não ter problemas para passar de ano.” Ele explicou para a Dona Nancy que para passar de ano ele precisava saber a matéria e que isso não seria problema, portanto, não teria motivo para não passar de ano. Ela teve de apelar para a autoridade de seu diploma, conseguido, aliás, com muito sacrifício no curso noturno da Faculdade Municipal de Ibutuandava, enquanto trabalhava de secretária numa gráfica das sete da manhã às seis da tarde. “Luizinho… Luiz, meu nome é Luiz, não Luizinho. Sim, claro, Luiz, a escola precisa de regras, as mesmas regras para todos, se você puder passar sem provas, então todos vão se sentir no mesmo direito, daí ninguém vai aprender nada. Por que ninguém vai aprender nada, que interesse os alunos teriam de ir pra escola e não aprender nada?” Luiz defendia sua posição usando uma lógica simples e irrefutável: quem vai à escola quer aprender, não vai deixar de estudar se não existirem mais as provas, logo, as provas eram pura perda de tempo, que podia ser usado para aprender mais ainda. Dona Nancy tentou de tudo, mas nada fez efeito: Vigotsky, Paulo Freire, Piaget e quase chegou a apelar para Pinochet. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-size: 12pt; line-height: 150%;"&gt;Não demorou para que a escola exigisse a presença dos pais de Luiz. Seu pai era muito ocupado, engenheiro, sócio de uma construtora, disse: “Sua mãe vai lá, mas filho, faça as provas, às vezes a gente tem de jogar as regras do jogo, sabe. Não pai, não vou mais fazer provas. Então sua mãe resolve isso.” Sua mãe era muito ocupada, advogada, sócia de um escritório de advocacia, disse: “Ai Luizinho… Luiz, mãe, já falei. Luizinho, faz as provas, você nunca teve problemas com isso. Não mãe, não vou fazer provas, não servem pra nada. Mas são as normas, filho, a gente tem de seguir as normas como todo mundo. Mãe, se todo mundo seguisse as normas, ninguém ia precisar de advogados.”&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-size: 12pt; line-height: 150%;"&gt;No dia seguinte bem cedo, a mãe de Luiz encontrou-se com o diretor da escola, informando que seu cliente, quer dizer, seu filho, não podia ser obrigado a fazer provas, que era uma garantia constitucional, etc. O diretor, convicto de sua autoridade inabalável, não deu muita bola, informou que se seu filho não fizesse as provas seria reprovado. Ela, que tinha uma audiência em seguida, deixou a escola prometendo que tentaria de novo falar com Luizinho.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyTextIndent"&gt;Nada adiantava. Luiz estava inflexível na sua resolução. Toda a pressão que sofria, no entanto, não lhe tirou o prazer das horas de estudo em casa ou na biblioteca. Ao contrário, sentia-se cada vez mais dono de um arsenal de conhecimentos que impulsionavam sua alegria de ser o que era. Seus colegas passaram a prestar atenção nele, invejar sua infreqüência nas provas e até seu gosto pelos estudos. &lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-size: 12pt; line-height: 150%;"&gt;Um deles, por conveniência, juntou-se à sua luta, livrando-se assim das notas baixas e da necessidade de ficar horas na frente de livros que não lhe diziam nada. Chamava-se Marcelo, era alguns anos mais velho que Luiz, chegou até a passar algum tempo na biblioteca, fuçando as prateleiras, tomando coragem diante dos livros. Apareceu, algumas semanas depois, na prova de Matemática com o rosto inchado e um curativo na testa. Ouvia-se dizer que apanhara do pai, quando este soube da resolução de Marcelo em não mais fazer as provas. Acrescentava-se que não era a primeira vez que lhe dava um corretivo. Marcelo encarava a prova de Matemática com os olhos vazios, sentia sobre si os olhares de seus colegas, envergonhava-se de tudo, de não saber matemática, de estar com o rosto marcado, de si mesmo, por não conseguir fugir dos golpes, por não estar à altura do amor de seu pai. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-size: 12pt; line-height: 150%;"&gt;Levantou-se. A professora disse que ele não podia sair da sala. Saiu da sala. Dona Nancy, a coordenadora pedagógica, disse que ele não podia ficar ali no corredor no horário de aula. Deixou o corredor. Foi em direção à biblioteca. Entrou. Luiz estava numa mesa mais no fundo, lia &lt;i style=""&gt;A genealogia da moral&lt;/i&gt;. Viu Marcelo caminhando em sua direção, levantou-se a tempo de receber um soco de uma força colossal, no centro de seu rosto, caiu de costas no chão, entre duas prateleiras de livros. A dor se irradiava de seu nariz para todo seu corpo, sangue escorria-lhe sobre sua boca. Alguns segundos antes de desmaiar, notou que segurava o livro de Nietzsche bem agarrado à sua mão esquerda. As palavras do filósofo repetiam-se em seu espírito delirante: “Enquanto toda moral nobre nasce de um triunfante Sim a si mesma, já de início a moral escrava diz Não a um ‘fora’, um ‘outro’ – e &lt;i style=""&gt;este &lt;/i&gt;Não é seu ato criador…”&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: right; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;" align="right"&gt;&lt;span style="font-size: 12pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: right; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;" align="right"&gt;&lt;span style="font-size: 12pt; line-height: 150%;"&gt;04/09/08&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-indent: 35.4pt; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="line-height: 150%;font-size:12;" &gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7933450792545074082-5956450307677071401?l=sandrokobol.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sandrokobol.blogspot.com/feeds/5956450307677071401/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://sandrokobol.blogspot.com/2008/09/prova-de-mtemtica.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7933450792545074082/posts/default/5956450307677071401'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7933450792545074082/posts/default/5956450307677071401'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sandrokobol.blogspot.com/2008/09/prova-de-mtemtica.html' title='A prova de Mátemática'/><author><name>Sandro Kobol Fornazari</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/-xTzN-4bkzAc/TdRJ1ORxxmI/AAAAAAAAALo/4H4de0TD-Pc/s220/S6300830.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7933450792545074082.post-629479989344806268</id><published>2008-09-05T17:04:00.006-03:00</published><updated>2009-04-16T19:52:06.816-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Ficção'/><title type='text'>Presságio funesto</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;(Inspirado no conto "A cartomante", de Machado de Assis)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;&lt;br /&gt;Era o Rio de Janeiro imperial, 1869. Dona Maria Anunciadora de Almeida estava triste e um tanto desgostosa com a vida nos últimos meses. Ela que se acostumara com a companhia do único filho desde a morte do marido, alguns anos atrás, agora passava seus fins de tarde e noites sozinha, desfiando o rosário de sua viuvês. Camilo contava então com vinte e seis anos, mas saía pouco de casa, não sendo afeito à boêmia, gostava mais dos passeios pela cidade nos finais de semana, de tomar um café com torta nas confeitarias do Centro e de vasculhar os livreiros em busca das últimas novidades da literatura romântica que chegavam da Europa. Nos fins de tarde, quando ele voltava de seus encargos de funcionário público, tomavam, mãe e filho, um café da tarde acompanhado de biscoitos ainda mornos que ela mesma preparava enquanto cantarolava em sua cozinha. Depois jogavam damas e, uma ou duas vezes por mês, Camilo a levava ao teatro.&lt;br /&gt;Depois do retorno de Vilela, amigo de infância de seu filho, o forno de D. Maria Anunciadora já não se acendia com freqüência. Após o almoço, Camilo a avisava que não viria para o café, pois Vilela e a esposa o aguardavam para isto ou aquilo, passeios, jantares, teatro. Vilela casou-se em Campos dos Goytacazes, onde foi exercer a magistratura, que abandonara para ser advogado na capital. D. Maria reconheceu a graça e a vivacidade da esposa, de nome Rita, quando esta acompanhou o marido em uma visita à casa onde ele passara tantas tardes de sua infância brincando e comendo biscoitos. Desconfiou, no entanto, de alguns gestos pouco contidos da mulher, diria-se até vulgares, e da completa ausência de recato de suas risadas.&lt;br /&gt;Quanto mais tempo sem a companhia de seu filho, mais D. Maria começou a estranhar que ele passasse tantas horas junto do casal de amigos. Pensava que devia estar interferindo na intimidade deles. No entanto, sentia também um pouco de felicidade pelo filho, que tinha tão poucos amigos, talvez fosse ela que devesse sair mais vezes de casa, não apenas para ir à missa, como era habitual, mas para visitar a irmã em Paquetá ou a tia em Cosme Velho.&lt;br /&gt;Mas, naquele dia, especialmente, um sentimento ruim a afligia. Isso porque, um dia antes, uma de suas mucamas achara, no quintal da casa, um sapo com a boca costurada. Como era bastante supersticiosa, viu naquele batráquio emudecido um sinal de mau agouro, de que algo que era mantido em segredo traria uma desgraça a mais para aquela família. Que segredo poderia ser aquele, Camilo agora teria dado de esconder coisas da sua mãezinha? Só podia ser algo relacionado a Vilela, cujo retorno à cidade trouxe tantas preocupações novas para ela. Pensando bem, esse retorno fora um tanto suspeito, já que seu trabalho com a magistratura havia sido tão bem sucedido. Que segredos trazia aquele casal consigo? E Vilela que nunca fora muito vivaz, por que será que se fazia cada vez mais sisudo? Com sua cabeça a não lhe dar descanso desde o instante que acordara, remoendo suspeitas e antecipando desgraças imaginárias, D. Maria não viu outro recurso senão ir consultar a cartomante.&lt;br /&gt;Seguiu o caminho da rua da Guarda Velha, onde ficava a casa da prestigiosa vidente. Fazia anos, desde as vésperas da morte de seu marido, que ela não procurara mais a mulher italiana, cujos olhos, de tão penetrantes, eram como se devassassem o próprio Destino. Da última vez, dali saiu sem esperanças na recuperação do marido, que morreu três dias depois sentindo dores terríveis devidas a uma úlcera. Estava muito agitada e nervosa naquela tarde, esperava que a cartomante lhe tranqüilizasse em relação ao presságio funesto que apareceu saltando em seu quintal, que asseverasse que seu único filho estivesse a salvo das maleficidades do mundo e que logo voltaria aos antigos hábitos dos biscoitos caseiros e dos jogos de dama.&lt;br /&gt;A cartomante abriu-lhe a porta de sua depauperada casa na rua da Guarda Velha, que antes aumentava do que destruía o prestígio, e conduziu-lhe escada acima para o sótão atravancado de velharias em que lia a sorte. D. Maria Anunciadora foi sendo tomada de angústia. A italiana, sentada contra a luz da única janela, baralhou as cartas penetrando-lhe com os afamados olhos agudos.&lt;br /&gt;"A senhora precisa ser forte para enfrentar bem as coisas que virão." Disse-lhe enquanto descia as primeiras cartas sobre a mesa coberta de um pobre pano de feltro vermelho. "Minha Nossa Senhora, quer dizer que vai mesmo acontecer alguma desgraça! As cartas dizem que alguém voltou de viagem… O Vilela, amigo de meu filho, que é que tem? Vejo-o num acesso de fúria, seu filho tem de afastar-se dele." D. Maria mal conseguia respirar. A cartomante prosseguiu: "Vejo duas mulheres na vida de seu filho, uma é a senhora, enquanto ele estiver do seu lado, nada de mau pode-lhe acontecer, a outra… será sua perdição. Santa Maria Mãe de Deus, o que devo fazer?" A cartomante calou-se por uns instantes, observando as cartas sobre a mesa, depois disse, sem esconder o desconforto diante dos infortúnios que as cartas previam para aquela mãe aflita: "Já disse, enquanto a senhora estiver por perto, nada de mal vai acontecer a seu filho, está tudo aqui, as cartas não mentem."&lt;br /&gt;Aturdida, a cartomante encerrou a consulta, recolheu as cartas e pediu que D. Maria se retirasse, acompanhou-a até a porta, descendo as escadas. Não quis aceitar o dinheiro dela, os dois mil-réis que costumava cobrar. Fechou rapidamente a porta.&lt;br /&gt;D. Maria Anunciadora caminhou sem rumo, enquanto a cidade vagarosamente escurecia. Perdida num turbilhão de sentimentos e idéias, ela tentava entender o que a cartomante lhe dissera. Vilela enfurecido, uma mulher fazendo perder-se em vicissitudes seu filho, seria Rita, só podia ser, logo desconfiara dela. Ah, quanto horror em seus pensamentos. Imaginava Vilela transtornado pelo ciúme, escorrendo o sangue de sua esposa, depois indo atrás de Camilo para terminar de lavar sua honra. Como poderia Camilo deixar-se seduzir por aquela mulher? Não, isso ainda não acontecera, se ela pudesse impedir a assídua freqüentação de Camilo à casa dos recém-chegados, ele estaria à salvo, mas como ela faria isso? Viu-se em frente da Igreja da Candelária, entrou, ajoelhou-se penitenciando-se por seus receios supersticiosos que a levaram à casa da italiana, mas justificando-os em nome de um bem maior que buscava para seu amado filho. Permaneceu ali por algum tempo, pedindo que Deus a iluminasse mais do que a cartomante fora capaz. Quando saiu da igreja, mais calma, porém perdida nos labirintos de sua alma angustiada, a noite já tomava conta de tudo. Seguiu em direção do Largo da Carioca, quando se aproximava, não viu, nem ouviu a charrete que se deslocava a trote largo, foi jogada longe pelo choque sofrido com o cavalo, desfalecida.&lt;br /&gt;Sob os cuidados do médico da família, D. Maria Anunciadora de Almeida morreu nessa mesma noite, no leito em que também seu marido dera o último suspiro. Camilo segurava suas mãos e chorava copiosamente, sentindo os remorsos de ter estado tão afastado dela nos últimos tempos, desde o retorno de Vilela. Ao seu lado, Rita consolava o coração de Camilo, enxugando-lhe as lágrimas com seu lenço de seda, admirando-o pela franqueza de seus sentimentos pela mãe.&lt;br /&gt;No quintal, as mucamas enfim encontraram o sapo com a boca costurada, presságio de toda a desgraça que se abatia sobre a casa. Mataram-o a pauladas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;20/8/2008&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;&lt;a href="http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000257.pdf"&gt;&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;Link para &lt;/span&gt;&lt;a href="http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000257.pdf"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;"A cartomante"&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000257.pdf"&gt;&lt;/a&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7933450792545074082-629479989344806268?l=sandrokobol.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sandrokobol.blogspot.com/feeds/629479989344806268/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://sandrokobol.blogspot.com/2008/09/pressgio-funesto.html#comment-form' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7933450792545074082/posts/default/629479989344806268'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7933450792545074082/posts/default/629479989344806268'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sandrokobol.blogspot.com/2008/09/pressgio-funesto.html' title='Presságio funesto'/><author><name>Sandro Kobol Fornazari</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/-xTzN-4bkzAc/TdRJ1ORxxmI/AAAAAAAAALo/4H4de0TD-Pc/s220/S6300830.JPG'/></author><thr:total>3</thr:total></entry></feed>
